TRANSPOSIÇÃO: As águas no curso da privatização

Francisco Saldanha mora a poucos metros de um grande volume de água, o Canal da Integração, mas quase foi preso por carregar baldes para dar de beber aos animais que possui. José Diógenes espera há mais de um ano por uma adutora que vai levar água do açude Castanhão para a pequena comunidade em que vive. Ele e os vizinhos pagam um carro-pipa para ter como cozinhar e beber, mesmo estando perto de um mar de água doce. Os dois residem em municípios do Vale do Jaguaribe, Leste do Ceará, são camponeses e guardam uma certeza: a água de grandes obras financiadas pelo Estado não tem como destino prioritário o pequeno produtor.
A história deles são recortes do documentário “Transposição do Rio São Francisco e águas do Ceará – os cursos da privatização”, lançado no dia 29 de março, em Fortaleza. Fazem parte de um mesmo enredo, que inclui contaminação de rios por agrotóxicos e lixo, implantação de uma grande siderúrgica, avanço do agronegócio e o uso particular de um bem público com o apoio governamental. “Para a gente daqui, o preço é lá em cima (da água e energia), agora para os grandes é tudo de graça”, denuncia o trabalhador rural Suerle Lima.

NA ROTA DOS NEGÓCIOS
O vídeo foi produzido pela Frente Cearense por uma Nova Cultura da Água – Contra a Transposição do Rio São Francisco, com baixo orçamento (total de R$13.200,00). Durante 41 minutos divididos em cinco capítulos, apresenta depoimentos, avaliações técnicas, elementos do discurso oficial e a reação dos movimentos e organizações ambientais. Traça um panorama de todo o Estado, mostrando os caminhos que a chamada integração de bacias percorre, distante das áreas mais secas e seguindo a rota dos grandes empreendimentos locais. Entre eles, a Usina Siderúrgica Ceará Steel, apresentada como a grande promessa do desenvolvimento.
“Os poluentes que essa indústria gera vão contaminar a água e o ar com metais pesados, como chumbo, cobre, cádmio, mercúrio, arsênio e o hexaclorobenzeno, substâncias que muito preocupam do ponto de vista dos ecossistemas e da população”, alerta a professora do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), Raquel Rigotto. Ela observa que a previsão é que essa mesma siderúrgica consuma de 4 milhões de metros cúbicos de água bruta por ano, o equivalente à demanda de um município com dez mil habitantes. Em atividade, pretende aumentar em 41% os índices de exportação no Ceará.
O projeto tem apoio da elite política cearense e une o deputado Ciro Gomes (PSB-CE), o governador Cid Gomes (PSB) e o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Os principais acionistas da Ceará Steel são a siderúrgica coreana Dong Kuk, a empresa italiana Danielli e a Companhia Vale do Rio Doce, cuja privatização está sendo questionada na Justiça. A energia elétrica consumida pelo pólo siderúrgico corresponderá a 15% do total utilizado pelos Estados de Pernambuco e Ceará juntos.

VELHA HISTÓRIA
A lógica da transposição é a mesma que norteou o Canal da Integração, construído para transportar as águas do maior açude cearense, o Castanhão, para a região Metropolitana de Fortaleza e o complexo industrial do Pecém. “O canal, que poderia beneficiar a gente que necessita, vai favorecer as pessoas que nem nesta terra moram”, denuncia Antônio José, assentado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O documentário alerta ainda para o quadro de degradação nas bacias fluviais. Em um dos trechos, é para um canal de esgoto que o São Francisco, também contaminado, vai correr.
Mas as imagens vão além da desesperança, mostram a riqueza da região nas paisagens e nos habitantes. Trazem a reação das mulheres, os indígenas reivindicando nos auditórios, uma multidão ganhando a rua em busca também de justiça ambiental. E lembram o verdadeiro valor da água: o de manter todas as formas de vida.

SERVIÇO
Vídeo “Transposição do rio São Francisco e águas no Ceará – os cursos da privatização”

Tempo: 41´:23´´ Inclui encarte de 12 páginas com informações e roteiro para discussões sobre o tema.

Preço: R$ 10,00 (sem custos de entrega)

Pedidos: (85) 3252.2410 e 3226.2476 ou pelos e-mails: esplar@esplar.org.br terramar@terramar.org.br

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