Artigo: Monotonia da vida

Quando estudamos os estilos de vida de diferentes pessoas, grupos e populações verificamos, com frequência, que muitos tentam evitar a monotonia da repetição dos acontecimentos e necessidades diárias da vida buscando transformações. E aí, muitas vezes, está o perigo de mudar para algo prejudicial ou que não esteja de acordo com os limites de suas necessidades. E mais, outros procuram variações das quantidades com a intenção de adquirir satisfação de viver.

Como exemplo, um dos grandes problemas atuais é o aumento acentuado da obesidade em todas as classes sociais. E temos o enorme desafio da obesidade nos idosos alem das várias doenças próprias da idade.

A monotonia da vida é cantada em prosa e verso há anos. Fernando Pessoa já dizia: “Em sua essência, a vida é monótona. A felicidade consiste pois numa adaptação razoavelmente exata à monotonia da vida”.

Para mim é uma ocorrência muito difícil da vida. Como muitos, gostaria de ter tempo para realizar meus planos. Constitui um preço alto que pagamos para viver. Mas as nossas grandes “inimigas” são as necessidades fisiológicas. As psicológicas, sociais, financeiras, religiosas e profissionais, quando bem mobilizadas e utilizadas, são as que nos causam satisfação de viver e felicidade.

Certo também que, quando não bem trabalhadas, levam aos possíveis problemas da monotonia da vida com diferentes tipos de doenças, estresses, depressões, psicoses, etc, além do tempo perdido de vida.

Falando das necessidades fisiológicas e de suas duas causas fundamentais de “perdas de tempo”, a alimentação e o sono, temos a certeza da indicação de fazer alguma coisa para diminuir ou mesmo evitar essas necessidades. Sabemos também que isto não é fácil de fazer. Calculei usar de 10 a 14 horas para o café da manhã, lanches, almoço, jantar e sono. E, para almoçar, ainda tenho de perder tempo me vestindo e indo para um self service perto de casa ou restaurante.

Pode se transformar numa desgastante monotonia se não manejarmos bem os elementos envolvidos! Tomo então a minha gostosa taça de vinho tinto e procuro degustar algo que seja saboroso e tenha as necessárias características de nutrição saudável e suficiente, como tem me ensinado minha filha nutricionista.

Estes momentos podem ser extremamente agradáveis e de grande satisfação. O difícil, mais uma vez, é ter a capacidade de manter o equilíbrio entre necessidade e prazer. Tenho recebido notícias de organizações importantes de qualidade de vida e de longevidade saudável que alguns centros de pesquisas estão trabalhando na elaboração sintética de alimentos, com calorias, componentes químicos necessários, reagentes e produtos indispensáveis à vida e concentrados em pequenas cápsulas ou soluções. E mais, promovendo sensações de sabor e de bem-estar prolongado. E aí me vem a preocupação do poder da indústria farmacêutica vendendo alimentação “barata e rápida”. Já pensaram no que poderá acontecer?

Outros pesquisam a função hormonal e sonífera da glândula Pineal, com a possibilidade de obter material suficiente para as chamadas “pílulas do antisono” sem causar qualquer problema em nossa fisiologia, o que tem sido muito difícil. Muitos que necessitam ou querem tempo para trabalhar ou gozar a vida nas festas, comendo e bebendo, vão querer. Com certeza.

Antero Coelho Neto – Professor e Presidente da Academia Cearense de Medicina

acoelho@secrel.com.br

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