| Sempre estão me lembrando do Nelson Rodrigues. Como é difícil o óbvio. E ele torna-se ainda mais importante porque necessita ser dito e praticado todos os dias. Como o óbvio geralmente é mais simples nós, latinos, não gostamos dele. Se eu fizer um pouco mais de esforço eu pareço mais complexo e inteligente, por que diabo eu vou ser simples? O negócio então é complicar. Em saúde, no Brasil, o óbvio tem sido sempre evitado e o caos aí está com todas as suas graves consequências. Agora a mídia fala tudo aquilo que muitos gritam há anos e anos e que é, somente, a apologia do óbvio. Dizem nos programas de TV e jornais, com a crise causada pela falta de UTI no Ceará: ``Prevenir é o melhor remédio. De cada dez atendimentos hospitalares, oito poderiam ser evitados com ações de prevenção e atendimento básico”. Muitos estão dizendo isso há anos porque é o óbvio ululante. Em 1983, como superintendente do Inamps participei do desenvolvimento de um grande plano nacional de racionalização e descentralização ambulatorial (Conasp) com aceitação da população em 85% de pesquisa efetuada. Mas depois tudo foi novamente esquecido em nome da “inteligência” dos complexos sabidos. Os complicados que me perdoem mas o óbvio é prevenir, é a saúde da família, são os medicamentos essenciais ou genéricos, o combate às endemias, a promoção da saúde e da qualidade de vida, a descentralização com responsabilidade para os municípios e o escalonamento adequado dos níveis de atenção de saúde. Melhor dizendo, o sistema de saúde deve realizar o que tem sido óbvio durante todos esses anos passados. Parabéns, senhores da crise atual, pela coragem de dizer que o óbvio voltou a ser importante para a saúde do brasileiro. Será melhor, mais barato, mais humano e mais científico. E tenhamos todos a certeza de que somente assim a saúde do povo pode melhorar. Mas, cuidado, muitos já pagaram um preço muito elevado em querer implantar medidas óbvias semelhantes. O plano nacional de medicamento genéricos, a racionalização dos ambulatórios, a mobilização do pessoal da saúde, o controle das internações hospitalares desnecessárias, a distribuição das autorizações de hospitalização com critérios epidemiológicos, o controle dos superfaturamentos hospitalares e a humanização hospitalar, etc., foram responsáveis por algumas saídas não bem explicadas de alguns ministros e secretários de saúde. Senhores Políticos que forem eleitos, muito cuidado, há muitas ``caixas pretas`` na política da saúde ! Que Deus nos ajude e nos permita, pelo menos, um pequeno espaço de tempo na simplicidade do óbvio e na prática de uma tecnologia médica mais humana e com melhor qualidade de vida.. E claro, com toda a possibilidade de uma alta tecnologia, a mais avançada do mundo, quando o doente, realmente, necessitar. Com as UTI que forem necessárias. Como médicos, trabalhemos todos tendo como objetivos a vida, a saúde, o sofrimento e a dor dos brasileiros. Antero Coelho Neto Artigo publicado no Jornal O Povo |