Teatrólogos e atores cearenses destacam a influência do pensamento do dramaturgo Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido, que morreu na madrugada do último sábado. Para eles, fica o legado de um teatro comprometido com a vida.
Foi-se o mestre. Fica a inspiração. O teórico, diretor e dramaturgo Augusto Boal, 78, expoente do teatro de resistência à ditadura no Brasil, que morreu na madrugada do último sábado (2), deixa o legado de um teatro comprometido com a vida, segundo teatrólogos e atores locais. São, pelo menos, 16 grupos em todo o Ceará inspirados pelo Teatro do Oprimido, em que o público é transformado em ator, metodologia criada por ele em 1972. O levantamento é do professor de teatro e ator Paulo Ess, cuja tese de doutorado, pela Universidade de Madrid, trata do teatro que conjuga arte e ação social. “Nós, brasileiros, temos, mais do que nunca, o compromisso de fazer com que o Teatro do Oprimido não morra com o Augusto Boal. E não vai morrer”, acredita. Paulo Ess tinha uma entrevista marcada com o dramaturgo no próximo dia 15 de maio. O material seria incluído nos anexos da tese de doutorado. “É uma pena. Mas o Augusto Boal vai deixar um experiência de luta, de resistência e de transformação”.
Para a diretora do Grupo Teatro de Caretas, Vanéssia Gomes, a metodologia terá continuidade no Ceará. “Augusto Boal fica como um farol. Tem muita gente que não conhece o método, mas sabe da importância dele. Ele é uma das referências mundiais de teatro”, diz. A diretora, que participou de uma residência artística em 2007, no Centro do Teatro do Oprimido, no Rio de Janeiro, é uma das multiplicadoras do pensamento de Boal no Ceará. Segundo ela, hoje são, pelo menos, 100 profissionais em todo o Estado, que passaram por oficinas promovidas por representantes do Teatro do Oprimido entre 2007 e 2008, em Fortaleza. A diretora planeja promover, ainda neste mês, a IV Mostra do Teatro do Oprimido do Ceará, em local a definir. O evento, que passou pelo Theatro José de Alencar, no ano passado, deve apresentar espetáculos locais que investigam a metodologia de Boal.
A influência do Teatro do Oprimido nas produções cearenses vem desde a década de 1970, segundo o poeta e teatrólogo cearense Oswald Barroso. Ele conta que o método marcou a trajetória do Grupo Independente de Teatro Amador O Grita (1973-1993) e o teatro da Boca Rica (1995-2005), dos quais Barroso fez parte. “Houve uma relação sempre muito estreita. O Boal veio várias vezes a Fortaleza. Fizemos muitas oficinas e debates. Nós encenamos, por exemplo, A revolução na América do Sul, do próprio Boal, em calçadas, praças, terreiros e campos de futebol, na capital e no interior”, lembra. Para Barroso, Augusto Boal é a principal referência de teatro no País e o teatrólogo brasileiro mais conhecido no mundo. “Lá fora, só a capoeira é tão conhecida quanto o Teatro do Oprimido”, dimensiona.
Expoente do teatro
Augusto Boal morreu na madrugada do último sábado (2), aos 78 anos, no Rio de Janeiro. Ele teve insuficiência respiratória, complicação decorrente de uma leucemia. O diretor tornou-se mundialmente conhecido pelo Teatro do Oprimido, segundo ele, “uma metodologia transformadora que propõe o diálogo como meio de refletir e buscar alternativas para conflitos interpessoais e sociais”.
Nascido em 1931, no Rio, Boal formou-se químico aos 21 anos, mas, aos 24, decidiu cursar teatro na Universidade Columbia (EUA). Um ano depois, em 1956, estreou como diretor no Teatro de Arena, em São Paulo. No começo dos anos 60, Boal foi um dos articuladores de um intercâmbio entre os grupos Arena e Oficina. Pouco após o golpe de 64, dirigiu no Rio o show Opinião, que reuniu artistas num gesto de resistência ao regime.
Em 1971, foi preso pelo regime militar, pelas ligações com o Partido Comunista do Brasil. Com a anistia, Boal retornou ao Brasil, em 1984. Em 1993, foi eleito vereador e usou as técnicas do Teatro do Oprimido para elaborar projetos de lei. Em 25 de março deste ano, em Paris, ele foi nomeado embaixador mundial do teatro pela Unesco. (JG)
Fonte: Jornal O Povo | Especial Vida & Arte - Juliana Girão/Redação |