Muitos museus celebram as proezas de reis e conquistadores. O Museu da Pessoa, o maior centro de história oral da América Latina, tem seu foco em personagens esquecidos, como Diocina Lopes, uma "quebradora de coco".
Era a década de 1980, e Diocina Lopes ajudou a liderar um grupo de mulheres quebradeiras de babaçu em uma batalha pela sobrevivência contra fazendeiros armados nas proximidades da floresta amazônica. "A polícia protegeu os pistoleiros, mas o trabalhador não poderia nem mesmo mostrar seu rosto", disse ela durante uma entrevista gravada em vídeo pelo Museu da Pessoa. Ela reuniu as mulheres para enfrentarem uma escavadora que iria derrubar sua floresta de babaçu. As quebradoras de coco de babaçu finalmente conseguiram que o governo reconhecesse seus direitos sobre a terra. Elas passaram a produzir sabão de óleo de palma para exportação, chamando-o "Sabão Mulher”.
A história da quebradora do coco de babaçu é uma entre as mais de dez mil histórias que o museu sem fins lucrativos tem coletado desde 1991. Elas formam um coro de vozes, algumas inspiradoras, algumas tristes, algumas engraçadas, que captura o espírito dessa nação lutadora, do tamanho de um continente.
Um desses contadores de histórias é Júlio Fombellida, um barbeiro que tem servido à elite política e artística de São Paulo há 50 anos. Em sua entrevista ao museu, ele fala da visita do ídolo do futebol, Pelé, e do desafio profissional de aparar os cabelos do corpo de uma celebridade antes do funeral. Fombellida ficou menos à vontade ainda no dia em que um ex-preso político e o policial que o havia torturado se encontraram em sua barbearia.
Outro entrevistado descreveu como encontrou sua vocação enquanto durante os 31 anos que cumpriu pena em uma prisão por homicídio e assalto. Pela tubulação, ele podia ouvir um colega detento que falava sobre grandes livros. Essa inspiração o levou a publicar várias obras autobiográficas sobre a vida na prisão e a subcultura dos criminosos.
O museu é a criação da historiadora Karen Worcman, que cresceu durante a ditadura militar Brasil (1964-85), quando tudo, exceto a história oficial, era censurado nos livros de história. Tal repressão moldou a filosofia do museu de que a história é melhor quando contada de baixo para cima.
"O Brasil é uma cultura oral, em parte por causa de nossas raízes indígenas e africanas", diz Karen Worcman. "Você encontra pessoas que podem não ter muita educação formal, mas têm um dom natural para contar uma história."
Nos EUA, a história oral se desenvolveu durante a Grande Depressão, quando o Federal Writers Project (“Projeto Federal de Escritores”) da administração Roosevelt coletou histórias de pessoas como o cortador de pedras Vermont, morador de um pântano na Flórida. Hoje em dia, instituições como o Museu da Pessoa ajudam a revigorar o gênero com o auxílio da tecnologia digital. O museu, que publica vídeos, transcrições e fotos online, possibilita que qualquer pessoa grave suas memórias. As pessoas podem contar suas histórias visitando o museu, entrando no seu site (http://www.museudapessoa.net/) ou até gravando um vídeo durante as viagens periódicas da equipe do museu.
Thom Gillespie, um especialista em telecomunicações da Universida de Indiana University, diz que o mais notável sobre o Museu da Pessoa é a inocência das histórias dos brasileiros. Ele faz uma comparação com os projetos de história oral dos EUA, que são com frequência como as "versões americanas de filmes europeus, repletas de finais felizes para consumo popular".
Isso dificilmente descreve a brasileira conhecida simplesmente como Dona Pequenita. Ela foi incapaz de abandonar sua amada aldeia, quase toda inundada com a construção de uma barragem. Há também a história de uma cozinheira, que foi adotada quando jovem e viveu com o nome Berenice de Tal. Não só ela não sabia seu sobrenome como só percebeu que não era branca aos 12 anos, quando seus pais adotivos lhe contaram isso. "Você é negra... você não tem nada a ver conosco", ela se lembra de seus pais dizendo.
Algumas das reminiscências são desastrosos, como a do metalúrgico cujo pai era, às vezes, cruel. "Meu pai era muito, muito ruim", disse ele. "Eu não sei se era só maldade ou ignorância". Ele lembra da vez que seu pai alimentou os cães com pão doce, mas nada ofereceu para sua irmã, que chorava por algumas migalhas. O homem que contou a história, Luiz Inácio Lula da Silva, é agora presidente do Brasil. Ele deu uma entrevista de oito horas para o Museu da Pessoa em 2000, dois anos antes de ganhar a eleição para presidente, em sua quarta tentativa.
Karen Worcman manteve o projeto economicamente viável, com o mínimo de apoio governamental, em um país muitas vezes instável, que sofreu com a hiperinflação e repetidas crises financeiras ao longo dos anos. Ela financiou o museu principalmente por meio de livros de depoimentos e vídeos para clubes esportivos, sindicatos, e, principalmente, grandes corporações. Em 1999, por exemplo, o museu começou a trabalhar em um vultoso projeto com livro, site e documentário em que os trabalhadores recontavam história da gigantesca mineradora Cia. Vale do Rio Doce.
Alguns estudiosos questionam a pureza da história oral do museu com base em seus métodos de financiamento. Mas Karen Worcman sustenta que esses projetos contratuais não apenas proporcionam receita operacional para o museu como ampliam seu acervo. Durante um desses projetos, por exemplo, um engenheiro contou como os migrantes rurais que chegaram a uma cidade para trabalhar em uma mineradora há 50 anos colocaram flores nos vasos sanitários, sem saber para que eram utilizados.
Às vezes, os narradores oferecer uma versão pessoal de épocas históricas importantes do Brasil. Nascido em uma fazenda, Rosental Ramos da Silva viu a história através do abre e fecha da porta da cozinha onde trabalhou como chef de presidentes de diplomatas entre as décadas de 1940 e 1960. Cozinhar para VIPs transformou Silva em um quase fanático com cuidados para evitar intoxicações alimentares. Cuidado com palmito, que estraga facilmente nos trópicos, ele advertiu: "ela pode arruinar uma carreira e matar pessoas".
Algumas narrativas são mais especiais do que outras. Em 1996, o museu entrevistou um vaqueiro chamado Germano de Araújo, que alegou ter 121 anos de idade. Como isso soava fantástico, Araújo fez uma cópia de sua certidão de nascimento indicando que ele nascera em 1875. Fumante inveterado, ele contou ter se casado 13 vezes, ser pai de 68 filhos e disse que "queria outro [século], pois este foi um rápido demais." Ele morreu pobre em 1999.
Por Matt Moffett, de São Paulo
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SÃO PAULO -- Plenty of museums celebrate the exploits of kings and conquerors. The Museum of the Person, Latin America's largest oral-history center, focuses on overlooked characters like Diocina Lopes, a "coconut breaker."
Back in the 1980s, Mrs. Lopes helped lead a group of women palm-nut processors in a battle for survival against pistol-packing ranchers on the edge of the Amazon jungle. "Police protected the gunmen, but a worker couldn't even show her face," she said during a video interview conducted by the museum. Mrs. Lopes rallied the women to stand in the path of a bulldozer bearing down on their babassu palm forest. The breakers eventually won government recognition of their land rights. They went on to produce palm-oil soap for export, calling it "women's soap."
The coconut breaker's tale is one of more than 10,000 stories the nonprofit museum has collected since 1991. They form a chorus of voices, some inspiring, some sad, some funny, that capture the spirit of this brawling, continent-size nation.
One storyteller was Júlio Fombellida, a barber who has served São Paulo's political and entertainment elite for 50 years. In an interview with the museum, he discussed visits from the soccer idol Pelé, and the professional challenge of giving a trim to a celebrity corpse before a funeral. Mr. Fombellida was even more ill at ease the day an ex-political prisoner and his former police torturer happened to come into his shop at the same time.
Another contributor described how he found his calling while serving a 31-year jail term for homicide and assault. Through a drain pipe, he could hear a fellow inmate who talked about great books. That inspiration led the man to publish several well-received autobiographical works on prison life and the criminal subculture.
The museum is the brainchild of Karen Worcman, a 47-year old historian who came of age amid Brazil's 1964-85 military dictatorship, when everything but the official story was censored from history books. That repression shaped the museum's philosophy that history is better told from the bottom up than the top down.
"Brazil is an oral culture, partly because of our African and indigenous roots," Ms. Worcman says. "You meet people who might not have had much formal education, but they have a natural gift for telling a story."
Oral history gained traction during the Great Depression, when the Roosevelt administration's Federal Writers Project collected stories of people like a Vermont stonecutter and a Florida swamp-dweller. Today, places like the Museum of the Person are helping to reinvigorate the genre with the aid of digital technology. The museum, which posts videos, transcripts and photos online, allows anyone to record a reminiscence. People can contribute their stories by visiting its office, logging on to its Web site (http://www.museudapessoa.net/), or catching up with the museum's video-camera operators during their periodic road trips.
Thom Gillespie, a telecommunications expert at Indiana University, says what's most striking about the Museum of the Person is the rawness of the Brazilians' stories. By comparison, he says, U.S. oral-history projects are often "like American versions of European movies, completely gussied up with happy endings for popular consumption."
That hardly describes the wraithlike Brazilian country woman, known simply as "Mrs. Little One." She was unable to uproot herself from her beloved village even after it was mostly washed away by a dam project. Then there's the tale of a cook who was adopted while young, and went by the name of Berenice de Tal (Berenice So-and-So). Not only did she not know her last name, but she didn't realize she wasn't white until she was 12, when her adoptive parents urgently told her so. "You're black...you don't have anything to do with us," she recalled them saying.
Some of the reminiscences are grim, like the tale of former metalworker with an at-times abusive father. "My father was very, very bad," the metalworker said. "I don't know if it was just badness or ignorance." He recalled how his father once fed sweet bread to some dogs -- but offered none to his little sister, who was crying for a few crumbs. The man telling that story, Luiz Inácio Lula da Silva, is now Brazil's president. He gave an eight-hour interview to the museum in 2000, two years before he won election as president on his fourth try.
Ms. Worcman has kept the project economically viable, with minimal government support, in an often-unstable country that has endured hyperinflation and repeated financial panics over the years. She has funded the museum largely by preparing memorial books or videos for athletic clubs, labor unions, and, above all, large corporations. In 1999, for instance, the museum began work on a massive print, Internet and documentary film project in which employees recounted the history of the giant mining firm Cia. Vale do Rio Doce.
Some academics have questioned the purity of the museum's oral history based on its funding methods. But Ms. Worcman maintains that her contract projects not only provide the museum with operating revenue, but also plump up its archive. During one assignment, for instance, an engineer recounted how the rural migrants who came to a mining company town 50 years ago put flowers in the toilets, not knowing what they were used for.
At times, the storytellers offer a personalized slant on significant epochs of Brazil's history. Born on a farm, Rosental Ramos da Silva got to see history through the swinging door of the kitchen where he worked as chef for Brazilian presidents and diplomats from the 1940s through the 1960s. Cooking for VIPs made Mr. da Silva almost fanatically cautious about food poisoning. Beware of heart of palm, which spoils easily in the tropics, he warned: "It can ruin a career and kill people."
Some tales are more outsized than others. In 1996, the museum interviewed a cowboy named Germano de Araújo, who claimed to be 121 years old. As fantastic as that sounds, Mr. Araújo produced a copy of a birth certificate indicating he was born in 1875. Mr. Araújo, a heavy smoker, said he had married 13 times, fathered 68 children and "wanted another [century] because this one went too fast." He died a pauper in 1999. |