O MESTRE


Por: Osmildo Santos

 

Nascido aos 06 de janeiro de 1942, na cidade de Areia Branca, Rio Grande do Norte Gilberto Ferreira de Araújo, conhecido pela população icapuiense, cearense e brasileira como Gilberto Calungueiro, veio com idade de 02 anos com sua família morar na cidade de Icapuí – Ce,especificamente na comunidade do Berimbau, onde reside até os dias de hoje. Icapuí, cidade praiana e tranqüila, dentre as poucas oportunidades que dispunha na época, oferecia ao Sr. Araújo (nome dado pelos mais íntimos), um mar de águas calmas e tranqüilas para dele tirar o sustento seu e de sua família. Tornou-se então, pescador.

Para a felicidade da cultura popular, com a idade de 08 anos o menino Gilberto teve o primeiro contato com a arte que iria mudar para sempre a sua vida. Em suas andanças pelas pequenas cidades dos estados nordestinos, Antonio Frazeiro, de origem baiana, foi o responsável pelo despertar naquele menino pela magia do teatro de bonecos. De imediato, ao saber da novidade que chegara a sua comunidade, sentiu-se extremamente curioso e atraído pela arte de entreter as pessoas dando vida a seres inanimados. Com a ajuda de amigos, também atraídos pelos bonecos e sem dinheiro algum para pagar a entrada, os três (ele e mais dois) cheios de peripécias comuns a todos os meninos daquela idade, combinaram de “brechar“ o espetáculo que estava por vir. “Peguei meu companheiro... um subiu no ombro do outro. Eu que era mais sabido, fui o primeiro a subir no ombro do meu companheiro e o primeiro a ver os bonecos”. Sendo a casa de palha, na tentativa de subir no telhado para poder ver melhor os bonecos, acabou caindo justamente dentro da empanada (espaço reservado ao bonequeiro separado por uma espécie de cortina). Neste momento uma mistura de sentimentos o confundia. O medo e a excitação deixava atônito diante daquela cena. O choro parecia algo inevitável e finalmente vieram-lhe as lágrimas. Mas, de repente, as lágrimas deram lugar lugar a felicidade, e, orientado pelo condutor da brincadeira, o menino Gilberto permaneceu naquele lugar, “curiando”, observando atentamente como procedia o “bonequeiro” com as suas criações. Este dia ficaria para sempre na memória do menino Gilberto.

Já no dia seguinte, tratou logo de contar aos seus amigos como fora o momento em que passou dentro da “empanada”, e de imediato, tratou logo de convidá-los para ir pegar pião (planta de pequeno porte e comum na região) no mato para esculpir os seus próprios bonecos. Como todo artista que ensaia em suas primeiras obras buscando a perfeição, com dificuldade, esculpiram grosseiramente os traços que davam características humanas àqueles pedaços de madeira. No canto da parede de sua casa, com a criatividade e espontaneidade inerente a sua pessoa, passou a divertir, juntamente com os dois companheiros, os amigos e vizinhos daquela comunidade. Dado um certo tempo em que divertia as pessoas com seus bonecos passou a cobrar 02 (dois) palitos de fósforo pela entrada, já que o dinheiro rareava entre aqueles que se interessavam pelo momento divertido, em sua maioria, crianças como ele. Logo, os dois palitos tornaram-se ½ (meia) caixa e posteriormente uma.

A partir de então, passou a esculpir os “calungas”, e outros foram adquiridos com outros amigos. Já com um número de 10 (dez) bonecos passou a se apresentar nas comunidades vizinhas do município ganhando a simpatia de todos por onde passava. Desde então, foi dos bonecos que passou a tirar o seu sustento, mas sem deixar de lado o grande e calmo mar que lhe amparava nos momentos mais difíceis. Com idade de 17 anos aproximadamente, já casado e com filhos, o seu pai comprou um bote para a atividade pesqueira. A pesca agora passava a ser sua atividade principal. A partir daí deixa de lado os seus “calungas”, uma vez que os mesmos já não estavam em alta como no princípio. Durante um período de aproximadamente 06 (seis) meses os calungas permaneceram guardados em sua mala, esquecidos.

Durante todo esse tempo em que permaneceram inanimados, sem a vida que lhes era dada pelo seu criador, a madeira que os compunham estragara. O sentimento de tristeza agora dava lugar à alegria que os bonecos lhe proporcionava. Em uma viagem a cidade de Canindé, a caminho da igreja aonde iria se confessar avistou a tão conhecida Casa dos Milagres (lugar onde as pessoas deixam partes do corpo feitas de madeira que foram curadas através de promessas). Foi então que lhe ocorre a idéia de pedir ao padre alguns daqueles bonecos que se encontravam na Casa para substituir os que havia perdido e por fim, conseguiu. A estes, acrescentou outros que conseguira com amigos ou comprara e a partir daí passou a criar estórias e personagens para as apresentações cidade afora.

Aruera Grande, Mossoró, Baraúna, Aracati, Caridade, Itapé do Sul, Maranguape,Itabatinga, Cachoeira de Cima, Canindé, Tauá, Arredores, Milagres, Boa Viagem, Maracanaú, Madalena, São Jose da Macaoca, Monteiro, Arneroz, Baixa Fria, Martins, entre outras muitas cidades dos estados do Rio Grande do Norte e Ceará, principalmente, compõem o roteiro de suas inúmeras viagens entretendo as comunidades mais longínquas com seus bonecos. Chegava a passar de 01 (um) a 02 (dois) meses fora, mas sempre que voltava trazia o sustento de sua família, nunca deixando de se preocupar com a mulher e os filhos. Quando o tempo era muito, dava um jeito de mandar o dinheiro. Em suas muitas andanças participou do IV FESTIVAL INTERNACIONAL DE TEATRO DE BONECOS DE BRASÍLIA realizado no período de 09 a 16 de novembro do ano de 2003. Participou também  do I FESTIVAL DOS INHAMUNS – Circos, Bonecos e Artes de Rua – realizado de 22 a 28 de maio de 2005.

Muitas são as estórias que Gilberto tem pra contar nestes tantos anos de atuação com os seus bonecos. E muitos são os personagens que protagonizam os mais variados causos. Inúmeras e inusitadas, foram as situações que vivenciou nos mais diversos lugares por onde andou. Numa dessas quase foi alvejado por um tiro disparado pelo filho do delegado de uma dessas cidades interioranas onde era bastante comum andar com uma arma a tira-colo. O motivo? Ter incluído o “dito cujo” em uma de suas estórias advindas do improviso. Esta é uma característica relevante de suas apresentações. Nelas o público participa ativamente, decidindo até, como será o fim das tramas e, por conseguinte, como será o destino dos artistas, bandidos, donzelas e mocinhos – “De sua mala de fantasia, surgem bonecos encantados que vão fazendo a festa. Através de brincadeiras, que inicia e termina fora da empanada, o bonequeiro brinca e conversa com o povo, contando historias e causos impressionantes.” Em outra situação seus calungas chamaram tanto a atenção do povo que às novenas já não iam um só vivente. Com um concorrente a esta altura o pároco viu-se obrigado a pedir ao calungueiro que saísse daquela cidade.

Como em toda estória popular sempre figura um artista (protagonista) – aquele que nunca morre, sempre se safa das mais variadas situações, sai de todas ileso. Consciente ou inconscientemente Baltzar (o artista), o que protagoniza quase todas as estórias, é um tipo de externação do “eu” interior de Gilberto. Assim como Baltazar o seu criador é um homem “de cor” e vida sofrida. Um “cabra da peste” que enfrenta tudo e a todos pra vencer as dificuldades que a vida lhe impõe. Além daquele, também figuram personagens como Aninha Terem (mãe de Baltazar), Filomena (noiva do Próprio), Zé Grilo (um andarilho onde sua casa é o mundo), Gaspar e Guede (homens que detêm o conhecimento – professores), Zé Miolo (o paquerador que não ta nem aí pro trabalho)... “Menina casa comigo que eu sou muito trabalhador, boto a inchada nas costas, nem no roçado não vou...”... “Menina diz a teu pai , e ele diz a quem quiser, que ele ta pensando em ser sogro e você é minha mulher..”, Viguilino (o que leva chifre de sua infiel mulher), Tapioca (o famoso preguiçoso que prefere ser enterrado vivo a ter que descascar arroz para comer).

Além destes, figuram também personagens que satirizam situações tão corriqueiras de nossa realidade como o político corrupto, o padre interesseiro, entre outros. Todos estes personagens ganham vida cada um com sua própria voz, jeitos e trejeitos. Até muito tempo atrás (vinte anos aproximadamente) seus bonecos eram mantidos em segredos “debaixo de sete chaves.” “Tinha ciúmes deles como um homem tem ciúmes de uma mulher bonita”. Até então, não deixava ninguém os tocar de tanto zelo que tinha pelos seus queridos bonecos. Mas, Conforme o tempo passava percebeu que quando chegasse o dia em que fosse embora definitivamente desta vida para a outra os seus tão apreciados “calungas” iriam certamente se perder no tempo e fatalmente deixariam de animar as platéias. Foi então que decidiu a repassar as técnicas do teatro de bonecos para os seus filhos e netos. Hoje, seu filho já contracena com ele por trás da empanada manipulando e imitando as vozes dos bonecos.

Hoje, já nos seus 66 anos de experiência, Gilberto Calungueiro é Delegado do Clube do Vovô, o que o torna mais apaixonado pela vida. Tanta experiência lhe fez vislumbrar o quanto é encantador o mundo das palavras. Entrou na escola de jovens e adultos e percebeu que o mundo das letras, que até então para ele era uma realidade inacessível, lhe possibilitou a descoberta de um novo horizonte, um novo chão no qual poderia pisar firme e forte nos caminhos da sua arte que faz desabrochar o sorriso por onde passa.


A ARTE DO MESTRE

A presença dos fantoches é assinalada desde a mais remota Antigüidade. Alguns estudiosos afirmam tenham se originado na Índia, outros asseguram serem oriundos do Egito, onde foram encontrados bonecos de ouro, marfim e barro. Já outros afirmam que o Teatro de Bonecos surgiu na China com as marionetes e o teatro de sombra, em peças, musicais, festividades e rituais. A medida em que o tempo passou, este foi evoluindo, aprimorando e desenvolvendo técnicas influenciando fortemente o teatro convencional de atores e o teatro de bonecos no mundo até os dias de hoje. Os fantoches freqüentavam as feiras da Antiga Grécia e de lá passaram para Roma.

Da Itália, na Idade Média, os títeres (outro nome dado a esses bonecos) caminharam pelas mãos de artistas anônimos para vários países da Europa, fazendo a alegria das crianças e também dos adultos. Naquela época a Igreja valeu-se do teatro de marionetes para a difusão do espírito religioso, visando atrair a atenção dos fiéis de maneira direta e objetiva, tendo esta forma de espetáculo adquirido também, o nome de “Presépio”, no qual figurava o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Deve ter sido sob esta forma que a representação entrou no Brasil. Durante muitos anos, tanto na Europa quanto em nosso país, os fantoches trabalharam nas cenas religiosas para ensinar a história bíblica, e pouco a pouco é que se deu a sua secularização, isto é, foram neles introduzidos assuntos profanos, principalmente aqueles que provocam a hilaridade.

Os fantoches são feitos de madeira, metal, papel, palha, barro, etc. São vestidos a caráter. Geralmente cada boneco tem o seu nome e a sua personalidade. Em todas as representações, nunca saem de uma determinada “linha de conduta”. Assim o chorão, o briguento, o falente, o bondoso, sempre se apresentam com seus predicados, pelos quais se tornam conhecidos. Além desses personagens humanos, há também os bichos, destacando-se entre nós o brasileiríssimo jacaré.

Com o passar do tempo os bonecos foram adquirindo caráter diferente, graças à maneira de serem manejados pelos artistas, assim é que hoje podemos classificá-los em grupos distintos, a saber, FANTOCHE ou BONECO de LUVA –  boneco com cabeça de madeira, de massa ou papelão, vestindo um camisolão de pano, cujo movimento é produzido pela mão (dedo indicador colocado na cabeça e o polegar e o médio nos braços) MARIONETE – os bonecos são ligados por fios a um controle, feito de madeira, que permite ao manipulador movimentá-los; BONECO DE VARA – boneco de madeira ou outros materiais, articulados e movimentados por varetas; BONECO DE SOMBRA – Refere-se a uma figura chapada, articulável ou não, visível com proteção de luz. MAROTE – É também um boneco de luva que o manipulador veste e com sua mão articula a boca do boneco.

BONECO GIGANTE – Geralmente com mais de dois metros de altura, utilizado em manifestações folclóricas e espetáculos de rua;

BUNRAKU – Teve sua origem no Japão. A técnica consiste em manipulação conjunta de três ou mais manipuladores que vestidos de preto se confundem com o fundo que tem a mesma cor;

FORMAS ANIMADAS – Fusão de teatro de bonecos, máscaras e objetos;

MÃOS ANIMADAS – Técnica criativa de representar figuras utilizando as mãos com pinturas e adereços.

O títere chegou ao Brasil em dois pontos diferentes e com um espaço de século e meio. Primeiramente apareceu em Pernambuco, talvez trazidos pelos holandeses, pois naquela época estava em grande voga na Holanda, sob o nome de “Jan Pickel Herringe”. Quanto ao nome mamulengo, não se sabe ao certo a origem, supondo uns que derive de “Mão Molenga”. É também conhecido como “Brincadeira de Molenga.” Os artistas pernambucanos de fantoches mais conhecidos foram o Dr. Babu, que exerceu enorme influência sobre os titeiristas que vieram depois, pois seus espetáculos eram, na maior parte, improvisados. O sucessor do Dr. Babu chamava-se “Cheiroso”, pelo fato de fabricar “cheiros”, essências baratas extraídas de flores e metidas em frasquinhos.

No Rio Grande do Sul os alemães trouxeram o “Kasperletheater”, que se naturalizou brasileiro sob o nome de “Gaspar”, para contar lendas brasileiras,como a do Negrinho do Pastoreio. Os bonecos são conhecidos por diversos nomes em várias regiões do Brasil: Briguela ou João Minhoca, em Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo; João Redondo, no Rio Grande do Norte; Mané Gostoso, na Bahia; Babau, na Paraíba e em alguns locais da zona da mata em Pernambuco e também Benedito, em outras partes do Estado.

As "estórias" são geralmente improvisadas, com diálogos inventados na hora, de acordo com as circunstâncias e a reação do público, misturando bichos - cobras, bois, cachorros, onças, gente, vaqueiros, latifundiários, bandidos e entidades sobrenaturais como, o Diabo, a Alma, a Morte, na sua maioria negros, figurando quase sempre um vilão de cor branca. Há sempre muita dança, pancadaria e sacanagens no mamulengo mas o motor de suas histórias está no antagonismo de classes sociais. O latifundiário, o doutor, o delegado e outras ‘autoridades’ são ridicularizadas pelos pobres, pretos e outros oprimidos. Mas tudo isso de forma alegre e poética. O Mamulengo quer arrancar, de improviso, o riso a qualquer custo. E se for possível também um dinheirinho ao rodar o chapéu no final da brincadeira...

A partir do século XX o boneco foi introduzido em diversos segmentos. Além do teatro, passou a ser utilizado em TV, cinema, artes plásticas, educação, psicologia, recreação e muito mais. Hoje em dia se confecciona e movimenta bonecos usando técnicas tradicionais e até avançadas, como é o caso do uso de tecnologia em animação.

A matéria prima usada também foi diversificada e a cada dia se amplia. A borracha, o poliéster, o alumínio e até sucata são usados atualmente,conquistando assim novos espaços e adquirindo novas formas e nova linguagem. Sem obedecer a limites, misturam-se bonecos, atores, objetos animados, dança, mímica, música, cenários ou ainda com o mais simples, pode ser apenas um objeto,que animado, manifesta a essência de quem o manipula. O Teatro de Bonecos é acima de tudo uma mágica aventura no universo das artes, da expressão, sem fronteiras de idiomas, costumes ou religiões.


Bibliografia

BORBA FILHO, Hermilo. Fisionomia e espírito do mamulengo: o teatro popular do

Nordeste. São Paulo : Companhia Editora Nacional; Edusp, 1966. (Brasiliana, v.332)

REIS, João Santiago dos. Folclore. Recife: Prefeitura da Cidade do Recife, 1983. p.7-8. Mimeografado.



 
 
 
 
 
 
Sede Administrativa
FUNDAÇÃO BRASIL CIDADÃO PARA A EDUCAÇÃO,
CULTURA, TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE
Rua Osvaldo Cruz, 01 Sala 1508 - CEP 60125-150
Telefax (85) 3268.2778
Email: faleconosco@brasilcidadao.org.br
Website: www.brasilcidadao.org.br
Base Operacional de Icapuí
Rua Floriano Monteiro, S/N - Praça da Matriz
Centro - CEP: 62.810-000 - Icapuí / Ceará
Email: faleconosco@brasilcidadao.org.br
Website: www.brasilcidadao.org.br