TREMEMBÉ

Origem do nome:

Topônimo indígena derivado de possíveis índios da Nação Tremembés que ocuparam a região, anteriormente também conhecida como Ponta dos Tremembés.

Linha da Vida

Segundo alguns moradores, desde o início do século XIX ou muito antes disso, talvez no século XVIII, Tremembé já era habitada. Há algumas versões sobre os primeiros habitantes. Relembram os mais velhos (memorando os contos da tradição oral passada de pai para filho) da existência de índios na comunidade, ao passo que fazem vagas menções aos “holandeses”. Os índios, da nação Tremembé, teriam deixado a região e se fixado na Ponta Grossa e Retiro Grande, e os últimos de seus remanescentes migraram enfim para a cidade de Amontada, no litoral norte do Estado do Ceará. Daí então a explicação para origem do nome “Tremembé” nessa região. Outra versão tenta explicar a origem do topônimo em função da existência de um riacho e de uma suposta areia movediça. (Leia-se: BRANDÃO, 1902. p. 308, 331-332. FREITAS FILHO, 2003. p. 73, 74 , 81. ARAGÃO, 1994. p. 101-103. Revista do Instituto do Ceará – RIC, 1937, p. 15-25. FERREIRA NETO, 2003. p. 45-46 ).

O povo vivia da pesca e da agricultura de subsistência. A primeira dessas atividades era praticada através de jangadas à vela, construídas de madeira de pinduba vinda do Norte do país a navios; bem como de paquetes, que eram barcos menores e de valor mais acessível; e de tresmalhos, armadilhas mui comum. Quando o mar estava calmo, os pescadores pegavam suas jangadas e saiam em busca de peixes de médio e grande porte, entre eles: a arabaiana, cavala, cioba, dentre outros. De Melancias, comunidade próxima, vinham muitos moradores, sobretudo mulheres, que em mutirão cuidavam do pescado tratando-o para conservar em grande quantidade para posteriormente serem vendidos a comerciantes como Simão Felipe e Juarez Damasceno, que os conduzia para revenda em praças como Aracati e Cascavel. Quando necessário, demandavam à Fortaleza, numa jornada de longos dias, em lentos comboios. A falta de um local apropriado e de condições adequadas para mantimento do peixe, levava muitos pescadores a assarem o produto para então os comercializarem.

O sal chegava a Tremembé ainda em barras grandes, trazidas das salinas de Icapuí. Colocadas em barris com água para derreter, esperavam alguns minutos a ter se fazer à acomodação do peixe para conserva.

Na agricultura se plantava o feijão, a batata, a mandioca e a cana. Existia uma casa de farinha dos Teodolino Damasceno, onde a maioria das famílias produzia sua própria farinha e armazenava durante algum tempo. Durante a colheita da mandioca era uma verdadeira festa para a comunidade. Mulheres e homens, em mutirão, colhiam o produto, descascavam e levavam semanas para fabricar a farinha, tão necessárias nas mesas das famílias locais.

O coco foi uma importante fonte de renda como subsídios à sobrevivência do povo. Colhidos, eram levados em animais para serem vendidos em Mossoró e em Jaguaruana. Havia ainda a fabricação do óleo desse produto pelas senhoras donas de casa, boa quantidade dos qual se destinavam ao comércio. A partir de 1910, aproximadamente, surge uma outra possibilidade de lucro pelo viés agrícola com a plantação do algodão. Vale destacar, ainda, a importante atividades das mulheres na coleta de Hortência. O valioso pêlo era vendido para a confecção de almofadas, enquanto a semente era utilizada como comida para criações como galinhas, etc. Mas, a segundo seus moradores, a gado criado solto nos arredores acabou pondo fim à atividade, posto que devoravam rapidamente as hortências, fonte de alimento para os rebanhos.

A intensa comercialização de muitos produtos na comunidade se dava por meio dos tropeiros ou comboieiros vindos de Cascavel, os quais retornavam com cargas de peixe e coco. Na década de 30 noticia-se um pequeno comércio local pertencente ao Sr. Manoel Contente. Outros pontos de venda interna surgiriam bem mais tarde, movidos, sobretudo pela modernização da pesca e seus lucros proporcionais. As primeiras unidades comerciais ligadas diretamente ao turismo só surgiriam em 1979, encetadas pelo Sr. Juarez Damasceno, devido ao fluxo crescente de veranistas vindos em sua maioria de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

Apesar de muita fartura na alimentação, as dificuldades eram várias. Não havia água boa para as necessidades locais. Enquanto muitas famílias tinham cacimbas em seus quintais, outras caminhavam longas distâncias na busca do líquido preciosas, transportadas em geral em latas nas cabeças das mulheres, que atravessavam lagoas profundas e outros obstáculos pelo trajeto.

A assistência à saúde era precária. A expectativa de vida era baixa, as pessoas morriam muito jovens na comunidade, tendo em vista a falta devida de assistência médica básica. O único profissional na área de saúde vinha de Mossoró, mas de lá até Tremembé era um longo percurso e o socorro muitas vezes chegava atrasado.

Ainda pelos idos de 1920 poucas casas existiam na comunidade, um número de treze, aproximadamente, a maioria de palha. Data também desse período a memorável Colônia de Pescadores Z – 14, que era mantida pelo Ministério da Marinha e servia, inclusive, de sede para a realização das missas na época do saudoso Padre Marcondes Cavalcante que muito ajudou a comunidade. Além do que a referida sede abrigou ainda a primeira sala de aula local batizada com o nome de “Escola Comandante Armando Pina” e teve como um dos primeiros professores o Sr. José Borges. Outros educadores passaram pela comunidade entre eles: Dona Neném, de Melancias; Dona Adalgisa e o Sr. Luiz Cirino que assumiu as atividades letivas em 1975, após a construção da primeira escola mantida pela Prefeitura Municipal do Aracati, no antigo local da Colônia de Pescadores. A Escola Municipal recebeu o nome de “Mário Dela Ravera”. Posteriormente, também passaria a lecionar em Tremembé o Professor Epitácio, da comunidade de Melancias.

Foi através da ajuda do Pe. Marcondes, em 1950, que teve início a construção da tão sonhado prédio da igreja local. Em mutirão, a comunidade se reuniu e sob o as orientações de Antônio Cirino, construiu a Igreja de Tremembé. As pedras foram extraídas de dentro do mar, trazidas de barco até a costa. Chegando em terra fazia-se uma fila de homens e as pedras iam passando de mão em mão, até chegar ao local do edifício. O prédio foi ameaçado de destruição em 1964 depois de uma grande chuva que quase irrompeu na abertura catastrófica de um antigo riacho, derrubando inclusive algumas casas e coqueiros, levando os moradores a se organizarem e abrirem uma vala para o escoamento da água em outro lugar. Foi desse processo que surgiu o “Riacho do Gango”, cujo nome deveu-se ao Sr. João Barra, da comunidade de Morro Pintado, que vinha constantemente a Tremembé e que numa de suas aventuras foi acometido por um fato que o levou a criar essa denominação, permanecendo até hoje.

Ainda sob as ordens espirituais do Pe. Marcondes aconteceu a tentativa de mudança de nome da comunidade para ‘São Pedro “, padroeiro do povoado. Mas a iniciativa fracassou com a recusa da grande maioria.

Entre as décadas de 1940 e 1950, o povo de Tremembé passou por momentos críticos de sua história. Muitos habitantes, na sua maioria jovens, abandonaram a terra natal em busca de novos horizontes, procurando guarida em outros Estados. Tudo era um mar de dificuldades, inclusive o acesso ao vilarejo que só se alcançava em horários certos de maré baixa ou por uma pequena vereda de morros de areia fina que apenas possibilitava a passagem de jipe ou animais. Foi apenas em 1984 que uma estrada carroçal, de piçarra, foi projetada a duras custas e construída em mutirão, em cuja inauguração houve feliz comemoração.

Uma das memoráveis novidades relembradas por seus moradores foi o aparecimento do primeiro rádio de bateria, puxado por um cata-vento, pertencente ao Sr. Alfredo, família dos Teodolino Damasceno, coincidindo também com a construção da primeira casa de taipa da comunidade. Novidade dessa ordem, que aos poucos aproximavam todos de um novo cotidiano imposta pela tardia modernidade, só foram possíveis décadas depois, com a introdução da “televisão”; um único aparelho (propriedade do Sr. Alfredo) que chegou ao povoado em 1980 com o intuito de transmitir a chegada do Papa João Paulo II no Castelão, em Fortaleza.

Os anos 50 foram de grandes marcos na formação da identidade local. É desse período, mais precisamente em 1955, que teve início as famosas e tradicionais festas de São Pedro, considerada uma das melhores da época em toda região. Pessoas de muitas localidades e cidades próximas chegavam a Tremembé para tão esperado momento. Quermesses, pastoris, leilões, além de saudáveis competições, como a escolha da rainha dos partidos Vermelho e Azul, animavam longas noites de brincadeiras e algazarras. Ao último dia, havia inesquecíveis procissões marítimas, um ritual que durou, mais ou menos até a década de 1990.

Como as demais comunidades praianas, por volta de 1960, os pescadores descobrem a lagosta não apenas como fonte de subsistência, mas como produto de altos lucros, acarretando algumas melhorias para poucas famílias.

Tremembé foi uma das primeiras, das poucas comunidades que se organizaram para discutir os seus problemas. Um movimento iniciado pela Igreja e tendo como grande articulador e tutor intelectual o Pe. Diomedes de Carvalho, personalidade de estimável contribuição para a conscientização do povo. No fim da década de 1970, uma grande novidade introduzida pelo sacerdote foi a instalação de uma “Farmácia Comunitária”, funcionando na Igreja com um kit de primeiros socorros. Duas pessoas da comunidade foram treinadas para a execução das atividades, foram: Dona Marli e Dona Lourdinha, que prestaram bons serviços a toda a população. Durante todos esse anos a Igreja exerceu bastante influência nas decisões e conquistas da comunidade.

No fim dos anos 80, o advento da energia elétrica (através do Projeto Lamparina) foi o primeiro de outros benefícios, entre eles a água que passou a abastecer toda a comunidade, vinda de uma caixa d´agua situada na comunidade de Melancias de Baixo.

As primeiras influências de uma relação relativamente mais fixa da comunidade com veranistas aconteceu com a construção da primeira residência pertencente ao Professor Vicente, de Fortaleza, a cerca de 23 anos, que se tornou uma pessoa bastante influente na localidade. Mas é somente na década de 90 que Tremembé descobre verdadeiramente o turismo como fonte possível de novas possibilidades de integração e renda. Neste sentido são construídas diversas barracas de praia, melhorias na via de acesso e regulamentação da Associação de Moradores. Tudo com o intuito de gerar uma infra-estrutura mínima capaz de manter e expandir a atividade.

É somente após a emancipação política de Icapuí que as coisas começam mesmo a melhorar, segundo os habitantes locais. Muitos serviços chegam a Tremembé por meio do poder público instituído com a vitória do “SIM” sobre o “NÃO” em 1984. Adventos como o saudoso “Acampamento Latino Americano da Juventude” em 1997, quando acontece pela primeira vez, passando a reunir milhares de pessoas de todos os cantos, num verdadeiro caldeamento cultural, abriram as portas para um turismo mais dinâmico e educativo.

1998 – A comunicação via telefonia fixa chega à comunidade – sistema de Orelhão. Antes, porém havia uma rede na residência do Sr. José de Alfredo, via ramal da localidade de Melancias.

 Grande salto na educação com muitos professores se graduando.

 Jovens da comunidade ingressando na Universidade.

2000 - Italianos descobrem a beleza e o encanto de Tremembé – a forte presença de italianos com a intenção de investimento no ramo do turismo responsável e sustentável.

 Construção de uma quadra de esportes, lazer para os jovens e centro de eventos sociais.

2001 – Início da instalação de uma rede de hotelaria e restaurantes: “Pousada e Restaurante Tremembé”; “Casa do Mar”, empreendimento português que chega a gerar emprego para alguns jovens da comunidade.

2002 – Pavimentação do centro da vila.

2003 – Água encanada e tratada em quase todas as residências através do Sistema de Autônomo de Água e Esgoto – SAAE, Autarquia Municipal.


Participaram desse processo de resgate da memória coletiva local:

Heloísa Ferreira Rebouças; Edmundo Pereira Rebouças; Elsa Rebouças da Costa; Maria Vilaní Rebouças; Iza Maria Ferreira Rebouças; Maria de Fátima de Oliveira; Luiz Ferreira dos Santos; Bruna Késia Damasceno Batista; Mônica Patrícia de Oliveira; Regina Célia Ferreira de Alcântara; Cleomar Silva Santos; Maria José da Silva; Angélica Padilha; Dona Altina; Luiz de Neco; Raimundo Damasceno; Juarez Damasceno e Raimundo Alcântara Ferreira da Silva. Em oficina realizada em 10 de setembro de 2005, sob a moderação de Gláucia, Rosineide e Luana Rebouças.

Referência Bibliográfica

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