RETIRO GRANDE

Origem do Nome: É um indicativo à tranqüilidade do local, referencia espacial de descanso, pressupondo abrigo, refúgio.

Linha da Vida

Sem dúvida, o Retiro Grande ocupou uma posição de destaque ao longo da nossa ocupação costeira, com alusão em importantes documentos, entre eles as cartas de marear ou mapas dos séculos XVI e XVII, que tratam da chegada e passagem do homem europeu e posteriores colonos pelo litoral cearense (sobre mapas antigos e navegações do Ceará ver a obra de Thomas Pompeu Sobrinho: Proto-história Cearense. 1980. Ed. UFC, Fortaleza. In FREITAS FILHO, Manuel de. A Aldeia do Areal: história e memória de Ibicuitaba, Icapuí, CE. 2003, BNB, Fortaleza. Cap. II p. 27 – 67. Lia-se também FERREIRA NETO, Cicinato: Estudos de história jaguaribana. 2003, Ed. Premius, Fortaleza. Fortificações no litoral jaguaribano, p. 185).

Por sua estratégica posição geográfica e devido as excelentes condições oferecidas por seu porto natural a aportagem de embarcações, o Retiro prestou-se inclusive a portal de entrada para muitos colonizadores que se destinavam ao interior do médio e alto vale jaguaribano, como foi o caso de Luciano Cardoso Vargas Dias (o “Abraão do Jaguaribe”), que a procura de um centro para exercer a medicina, profissão na qual era licenciado, desembarcou no Retiro Grande com a mulher e filhos para em seguida alcançar o Povoado de São João do Jaguaribe (leia-se: Brígido, João. Meia Crônica do Jaguaribe, Parte VI, p. 142 – 143).

A memória coletiva da comunidade não reconheceu o fato colocado pela vizinha povoação da Ponta Grossa, que sugere a relação local do nome “Retiro Grande” com grandes retiros espirituais promovidos pela Igreja Católica. A resistência é pertinente. Há alusões de que a primeira capela religiosa erguida no litoral icapuiense tenha sido nas imediações da atual povoação do Retiro em fins do século XVIII e cuja padroeira seria Nossa Senhora dos Milagres (ver Livro Nº 75 – Câmara Municipal de Aracati – período de 1838 a 1853. In FREITAS FILHO. Cap. III, p. 113 – 116. Veja ainda: LEAL, Hélio Ideburque Carneiro: Igreja de Nossa Senhora do Rosário, a Matriz de Aracati. 1998. Ed. Gráfica Minerva, Fortaleza). Mas o fato por si só não autoriza crenças otimistas que leve a entender ali a existência de eventos religiosos como era o caso dos retiros, diga-se, exigentes em uma infra-estrutura básica e disponibilidade de recursos suscetíveis a estada de dias e até semanas. É importante compreender ainda que a edificação de templos ou capelas em áreas tão descentralizadas, nem sempre implicavam na ação ou orientação direta dos religiosos.

Os relatos de que aportavam grandes navios na comunidade é uma constante, ressalvando ainda que o núcleo inicial do povoado estava localizado mais no interior do território, no meio da mata. Declarações como as de Dona Maria Ferreira (habitante mais velha da comunidade) revelam que a incidência constante de insetos como mosquitos e as conseqüências deles decorrentes fizeram com que se transferissem para perto da praia, o que possibilitou a atividade pesqueira com mais freqüência. Outro fator convergente para esse deslocamento teria sido provocado pelas prolongadas ações das secas ou estiagens, não muito raras na região.

A comunidade como hoje se define, surgiu a partir da implantação da Fazenda Retiro Grande, propriedade da Família Porto, tendo como um de seus primeiros feitores o Sr. Balduino que a tradição atesta ter vindo do Retirinho, outra comunidade costeira, mais ao norte, pertencente ao limítrofe município do Aracati. Outros grupos empresarias do pólo agrário já estiveram a frente dos destinos da Fazenda Retiro, entre eles destacam-se o Ernani Viana e o Geraldo Aguiar, estando hoje sob a administração do grupo Edson Queiroz.

A vida pacata e ordeira da comunidade está diretamente ligada às condições sob a qual vivem. Uma população que ainda encontra no isolamento um alto valor cultural, conservando seus costumes e tradições. Inicialmente sobreviviam da agricultura com o cultivo da mandioca, feijão, algodão, etc, e do pastoreio bovino. Um grande engenho e uma referencial casa de farinha compunham a pitoresca paisagem. Embora conseguissem algumas moedas de réis ou dinheiro propriamente dito, o comércio era algo difícil, tanto pela inexistência quanto pela distância dos centros comerciais, o mais próximo desses mercados ficava no Aracati, a sete léguas. A carência de rodovias ligada aos limitados meios de transporte como o famoso carro de bois, o burro, o cavalo, além de muitas jornadas a pé, não asseguravam vencer distâncias com eficiência, nem possibilitava uma comunicação eficaz.

Quanto à religião, é consenso de que sempre existiu o catolicismo, fortalecido com as Santas Missões Populares ao longo dos anos. Enfatizam que sacramentos como as Missas, Casamentos e Batizados, eram celebradas em baixo da copa frondosa de um grande cajueiro, árvore comum na comunidade. Dentro desse contexto espiritual o Protestantismo revela ser um evento relativamente recente, ligado às ações do Pastor Evangélico Pedro Ivo. Há no povoado um templo da Assembléia de Deus que remonta o ano de 1960. (Leia-se SOUZA, João Paulo de. O protestantismo em Icapuí )

A educação foi um outro fator que mereceu destaque no resgate coletivo da memória local. Relembraram de uma escola antiga situada em pleno matagal e, portanto, no primitivo núcleo do povoado, destacando a presença do Professor Abdias, natural da cidade do Aracati, bem como das Sras. Darica Torres e Dona Antonieta. Por algum tempo passaram a freqüentar uma outra unidade de ensino na Ponta Grossa, mas obstáculos como a distância, repleta de perigos para um trajeto feito a pé, acabaram desestimulando pais e crianças que ficaram sem o amparo educacional.

A saúde era outro desafio. A assistência médica dependia de um posto de atendimento na Redonda ou em Icapuí – sede, há cerca de quatro léguas do Retiro Grande. A água consumida era extraída de uma cacimba denominada “Cacimba do Barril”, até a perfuração de um cacimbão com anéis de cimento.

As datas têm que ser vistas a partir de uma perspectiva aproximada dos desafios e limites que a memória coletiva passa a encerrar.

1700 – Criação da Fazenda Retiro Grande, de Manuel Porto, onde se trabalhava com o gado e a plantação da mandioca, milho, feijão, algodão, além das atividades derivadas da produção nos engenhos e casas de farinha. (Obs: no que se refere à data para a implantação da fazenda a antiguidade é inquestionavelmente improvável, pois as primeiras datas de sesmarias na região datam exatamente a partir de 1705 e pelo que se consta na leitura dessas cartas de doação, eram glebas que ainda estavam devolutas, totalmente desabitadas pelo colono. No que tange mais especificamente ao Retiro Grande, as primeiras porções de terras com fito de povoamento só foram concedidas aos 26 de novembro de 1736 a Teodósio da Costa Nogueira e mesmo assim não há evidências claras de que foram realmente ocupadas – veja-se FREITAS FILHO, p. 92, e também FERREIRA NETO, p. 101-102).

1800 – Primeira casa de taipa coberta de palha, pertencente ao Sr. Balduino, um dos primeiros feitores da fazenda Retiro Grande, já então de propriedade de Antônio Porto, casado com Joaninha.

1830 – Predominância exclusiva da agricultura e da pesca artesanal praticada com o Jereré. Entre os primeiros pescadores foram citados: Zé Maria, Chico, Zé de Chico e Pedro. Período marcado também pelo difícil acesso dos moradores que dispunham apenas dos instáveis contornos costeiros, com total dependência aos horários das marés, além de uma vereda mal definida cortando mata adentro, perceptível apenas aos aguçados olhares do gentil local.

1930 – Em virtude da ausência de profissionais na área de saúde os partos eram feitos por “Dona Aninha Parteira”, posteriormente substituída por sua filha Maria Aninha, que com zelo e dedicação abraçou tão nobre ofício.

1940 – Instalação da primeira bodega ou comércio, por iniciativa do casal Rafael e Teresa Chato.

1950 – Assassinato de “Alexandre” por um “Biino”, razão pela qual os “Biinos” foram expulsos da comunidade e as festas religiosas (de santos e Santas Missões Populares) que eram organizadas por um deles acabaram, como os Pastoris. Os casamentos eram motivo de festa.

1960 – Construção da Igreja Evangélica Assembléia de Deus.

1976 – Transferência da comunidade do mato para próximo da praia. por causa dos mosquitos. Edificação da primeira barraca de palha próxima à praia, propriedade da Sra. Rosa Santos.

1980 – Água consumida pela comunidade proveniente da “cacimba do barril”.

1982 – Grupo Edson Queiroz compra a fazenda.

1984 – Grande inverno na região. Estourou a cachoeira com a cheia.

1985 – A cheia aterrou o cacimbão que abastecia a comunidade com água potável. A fazenda passou a abastecer a população através de carros-pipa com água vinda da Peroba.

Construção da primeira casa de tijolo e coberta de telha pelos donos da fazenda Retiro Grande, que tinha como principal morador o Sr. Abdias Bernardo Nascimento.

1986 – Fechamento da cachoeira pelo Grupo Edson Queiroz.

1987 – A Igreja Evangélica foi cedida para funcionar a escola.

1988 – Construção e inauguração da Unidade Municipal de Ensino de Retiro Grande, que funcionou até 1990, tendo como professoras a Sras. Abigail e Izabel.

1990 - perfuração de um poço profundo conseguido pelos representantes públicos locais.

1994 – Escola Municipal de Retiro Grande funcionava com as Séries: 5ª, 6ª e 7ª, até 1997.

1995 – Criação da Associação de Moradores de Retiro Grande. Através dessa Agremiação Comunitária a população conseguiu significativos benefícios como energia elétrica, motor para o poço e a estrada de piçarra.

1996 – Afogamento por parada cardíaca do jovem Luciano, de 28 anos, na lagoa do Retiro Grande. A partir daí não se tomou mais banho lá e a lagoa secou.

1998 – Assoreamento da lagoa pela maré.

Garantia de transporte escolar para os estudantes se deslocarem até a sede municipal. Instalação de um dessalinizador no poço de água salobra, uma ação da Prefeitura Municipal em parceria com a Fundação Banco do Brasil.

2000 – Cinco pessoas de Retiro Grande foram beneficiadas com o Projeto de Apicultura ou criação de abelhas.

2001 – Duas jovens da comunidade ingressaram na Universidade do Vale do Acaraú – UVA, no Curso de Pedagogia.

Participação de dois jovens no Curso de Agentes Ambientais, promovido pelo AQUASIS, na Ponta Grossa.

2002 – Chegada do Grupo “ARCA”, coordenado pelo Sr. Wellington, de Fortaleza. O Grupo promove o Natal alegre na comunidade, com sorteios de presentes para as crianças, além de cestas básicas para as famílias. Sua estada na comunidade promoveu a recreação local por dois movimentos dias, com a realização de uma campanha de limpeza da praia.

2003 – Nova Campanha de limpeza da orla marítima.

Instalação do Ponto Fixo para observação e monitoramento da incidência de Peixes-Boi Marinho.

2005 – Mudança do nome da Escola Municipal “Retiro Grande” para Escola Municipal Guilherme Lopes da Silva, em homenagem ao pai de uma professora local. A iniciativa coube à administração pública do município.


Participaram deste resgate e construção coletiva da memória local

Antônio dos Santos Nascimento; Aparecida Bernardo Nascimento; Elisandro Basílio Lopes; José Maria Bernardo do Nascimento; Levi Bernardo da Silva; Luiza Sebastião da Silva; Maria dos Santos da Silva; Mônica Silva Augusto; Nazaré da Silva; Regilene Santos da Silva; Rosa dos Santos do Nascimento; e Zilmar da Silva Sobrinho. Em oficina realizada aos 14 de setembro de 2005, sob a moderação de Janaína Almeida e Luana Rebouças.


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