REQUENGUELA
Origem do nome:
Indicação referente ao apelido do primeiro morador da praia: o “senhor Requenguela”.
Linha da Vida
Por volta de 1925 a comunidade era chamada de “Mangue Alto”, isso pela existência de árvores muito altas (os mangues). O local era referência de fartura pela sua grande biodiversidade.
Em meados da mesma década surge a “Salina Nazareth”, propriedade primeira do Coronel Alexanzito, do Aracati, que se teria se apossado da terra, patrimônio da União, e dado início à construção de dois cristalizadores que custou a vida de uma significativa área de mangue e dos seres dela dependentes. Num primeiro momento 50 pessoas detiveram-se a brocar e cortar o manguezal, enquanto outros tantos se empenharam na construção das paredes dos tanques, pedaço a pedaço.
A saga dos trabalhadores do sal não era nada fácil. O processo de produção era penoso e se dava a longas jornadas, de sol a sol, por vezes varando a noite. Colocavam água do mar no chocador e no cristalizador, que com 90 dias produziam o produto em grandes blocos de pedra salitra. Seu José conta que nesse tempo o transporte do sal era feito em balaios. Um balaio de 75 litros, 12 balaios para 5 hectares de sal, para isso havia um conferente. O transporte de todo o derivado também era feito a duras custas nas costas dos homens que se expunham a toda sorte de perigo e ou doenças que o sal poderia causar. Já para a condução da lama utilizada nos aterros, usavam uma padiola.
Em 1930 a Salina Nazareth já contava com 10 cristalizadores com um total de 100 homens na colheita por semana, todos eles sem a garantia de nenhum direito trabalhista. Numa área exaustiva de trabalho nas condições operantes era patente a total ausência de moradores fixos na região. Os operários deslocavam-se da Vila de Icapuí (ex-Caiçara) para produzirem uma média de 3000 toneladas de sal. Quando alguém se machucava na atividade voltava para casa e usava “sebo quente de gado” ou de “carneiro” no ferimento para cicatrizar e voltar ao exercício dias depois. Essa indústria saladeril teve como primeiro feitor o Sr. Francisco Félix ou famoso “Chico Félix”.
Data de 1940 a construção do ancoradouro da Barra Grande por Vicente Porfírio que também iniciou uma nova Salina na região. Dessa unidade produtiva de sal o Sr. Raimundo Nelson foi o primeiro feitor.
Grandes barcos aportavam no ancoradouro com imensos estoques de madeira para a fabricação das embarcações em Icapuí e retornavam carregados de sal.
Na década seguinte (1950) teve início um outro empreendimento saladeril, a Salina São Vicente, propriedade do Sr. Joventino Aracati. 10.000 toneladas, era essa a produção total das quatro salinas até 1950, empregando um total de 250 homens por semana, com o transporte do sal agora feito em carros-de-mão.
A criação do Sindicato dos Trabalhadores do Sal (STS) foi uma tentativa de garantir melhores condições de vida e trabalho aos operários, que apenas em 1960 teriam a organização oficialmente legalizada. Foi uma vitória de poucas conquistas, tanto assim que muitos trabalhadores chegaram aos anos 80 doentes devido às condições insalubres de trabalho e sem direito algum a aposentadoria.
Ainda no início daquele decênio a lagosta surge com importante e potencial fonte de comercialização e riqueza. No ancoradouro da Barra Grande, muitos barcos à vela, jangadas e botes, passaram a dividir espaço com navios de médio calado.
Por aqueles idos chegava à praia o primeiro morador, “Seu Severino”, cujo apelido era “Requenguela”. Ele construiu um barraco de palha e a primeira cacimba. O velho Severino tinha mania por bandeiras e colocava várias em seu barraco. Os pescadores batizaram a praia por conta das manias daquela figura impar. Avistavam-se de longe as bandeirolas e diziam: “Chegamos à praia do Requenguela!” Em 1960 o local é definitivamente batizado por “Requenguela”.
Os anos 70 trouxeram um segundo morador da praia antes desabitada. Sr. Fausto. Sua casa era de taipa coberta de palha. Posteriormente temos a construção da primeira estrada de acesso à Barra Grande. A população alimentava-se basicamente de búzios, peixes e ostras. O artesanato foi uma atividade complementar. Coletava-se várias espécies de búzios miúdos para a confecção de colares que eram vendidos aos mais interessados pelo trabalho. Uma década depois chegava Dona Eleuzina e seu Aureliano. Era o início efetivo do atual núcleo habitacional, logo após a chegada do Sr. João Velho, precursor do primeiro comércio na comunidade. Tratava-se de um boteco de palha e tábua que vendia bebida e tira gosto, com um detalhe apenas, peixe e mariscos eram por conta da casa.
Os vindouros de 1980 foi um período marcado pelo acelerado desmatamento do mangue para ampliação das salinas que visavam aumentar a produção de sal. Por outro lado, a poluição é deflagrada, movida pelos barcos mecanizados que lançavam óleos e outros dejetos ao longo de todo ecossistema local. Uma época lembrada também pela crescente invasão de terras na orla marítima – longas faixas de terrenos, propriedades da União. Com a tentativa de melhorar as condições locais e até mesmo o controle sobre áreas tão frágeis, foi criada em 1986 a Associação de Moradores da Requenguela, que contava com 30 sócios. A comunidade era formada por cerca de 40 moradores, cujos filhos freqüentavam a unidade municipal de ensino mais próxima, a Antiga Escola Mizinha.
1990 – Água potável, uma realidade possível em regime de mutirão: a Prefeitura doou o material e a comunidade cooperou com a mão de obra.
Início dos empreendimentos carcinicultores ou criação de camarão em cativeiro, entre os quais estava o Projeto de Carcinicultura Comunitário da Associação de Moradores da Requenguela.
Chegada da energia elétrica, prenunciando novas melhorias, sobretudo na área de infra-estrutura.
Constituição de uma Assembléia local com o objetivo de mudar o nome da comunidade. A iniciativa não logrou êxito e apenas serviu para reforçar a atual denominação.
Transferência de quatro residências de taipa da praia para a área comunitária central. O fato seu deu devido à falta de condições sanitárias em que se encontravam as casas.
Implantação do Projeto de Piscicultura através da Prefeitura de Icapuí, com verbas do Orçamento Geral da União.
2000 – Início de construções irregulares próximas ao mangue. Eram casas de veranistas que descobriram a comunidade como possibilidade de lazer nos fins de semana.
“Pró-Icapuí”, grande Projeto de Carcinicultura ligado a grupos norte americanos.
Desativação das atividades de Pisicultura.
2003 – Capacitação sobre o ecossistema do manguezal – Projeto “Esse mar é meu”, em parceria com a Fundação O Boticário. Uma iniciativa de recuperação da área degrada do mangue.
Falência das fazendas de camarão.
2004 – Construção da estrada de asfalto ligando Requenguela ao entroncamento da via de acesso principal a outras localidades do município, além da sede da cidade.
Participaram desse processo de resgate da memória coletiva local:
Vilani Ferreira da Costa; Maria Sidinéia da Silva; Raimunda Eleuzina de Paula; José Maurício da Silva; Maria de Fátima da Silva Santos e Francisca Félix de Paula. Em oficina realizada aos 03 de setembro de 2005, sob a moderação de Gláucia Sena, Dora Farias, Rosa Rebouças e Osmildo Santos.
Referência Bibliográfica
FERREIRA, Brasília Carlos. O sindicato do garrancho. Fundação Vingt-Un Rosado. Coleção Mossoroense. Vol. 1014. Série “C”. Mossoró, RN. 2000.
FREITAS FILHO, Manuel de. A aldeia do areal: história e memória de Ibicuitaba, Icapuí, Ceará. Fortaleza, CE. Ed. BN. 2003.
BEZERRA, Cláudio Alberto Barbosa. Impacto social da pesca da lagosta com compressor em Redonda – Icapuí – CE. (Monografia de Graduação em Engenharia de Pesca) Centro de Ciências Agrárias. Departamento de Engenharia de Pesca. UFC – Fortaleza-CE, 1992.
OLIVEIRA, Ocivá José de. Sociedade e economia na atividade lagosteira de Icapuí – CE. (Monografia de Especialização em Desenvolvimento Regional) Pró-Reitoria de Pesca e Pós-Graduação. UERN. Mossoró – RN, 1994.
_______________________. A atividade lagosteira no município de Icapuí-CE: a situação de vida do pescador, suas contradições e perspectivas. Revista Expressão, Ano XXX, Nº 1 e 2. UERN. 1999.
ANDRADE, Luiz Odorico Monteiro de. & GOYA, Neusa. Sistemas locais de saúde em município de pequeno porte – a resposta de Icapuí. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 1992.
SILVA, José Airton Félix Cirilo da. Icapuí uma história de luta. 1ª ed. Gráfica Encaixe. Fortaleza – CE, 1998.
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