REDONDA

Origem do nome:

Topônimo de ascendência geográfica, mencionando a formação de uma grande enseada em forma de “volta” ou “compasso”, dilata entre a Ponta do Vigário e o Cabo de Jabarana (Ponta Grossa).

Linha da Vida

Para Dona Maria Rodrigues, aos 75 anos, cujas memórias remontam a década de 1940 e por assim dizer, uma das mais velhas moradoras da comunidade, os primeiros chefes de família, precursores da saga de origem da comunidade foram “Chico Currupio” e “João Crispim”. Suas declarações são confirmadas pela Sra. Luzia Raimunda da Silva, ao mencionar como referência os casais João Crispim, em seu primeiro casamento com Rosa Carneiro, pais de 05 filhos, e em segundas núpcias com Maria Ursulina, com quem concebeu 11 rebentos; e Francisco Currupio, esposo de Dona Luzia Tereza, de cuja união nasceram 08 filhos. Não tardou para que o entrelaçamento entre ambas as proles, derivado inicialmente de uma “Crispim” com um varão “Currupio”, sedimentasse um seguro complexo genealógico ao longo das décadas ulteriores movidos por matrimônios concebidos entre indivíduos dos mesmos grupos.

“... e assim as duas famílias se misturaram. Hoje em dia é tudo uma gente só” – No dizer mesmo de Dona Luiza.

Naquela época contavam-se 23 casas, todas de palha, construídas pelo homem e pela mulher, herança passada de geração a geração. Vivia-se da pesca artesanal e da agricultura de subsistência. Faziam farinha ou utilizavam a mandioca brava que era cavada no chão e servia para fazer o “grolado” e o “beiju” para comer com peixe. Na falta da mandioca eles utilizavam a manipeba que era ralada e também servia para o grolado. Já se fazia o artesanato de palha (chapéu) que servia de troca por farinha e rapadura lá no Retiro Grande. O comércio era escasso, só havia duas bodegas, a de Chico Pindu e a de Antônio Pedro, mas quando faltava mantimento comprava-se na mercearia de Luís de Toinho, nas barreias, há uma boa distância dali.

Dona Marina Marques Bezerra foi a primeira professora. Por não dispor de relógio marcava as horas através do movimento do sol com uma marcação feita através de um toquinho de madeira fincado no chão, no começo da aula. Ela era da comunidade de Barreiras e dava aulas em uma casa cedida pela povoação. O Sr. Aldenor Bezerra do Nascimento, que chegou a Redonda aos 17 anos, em 1945, lembra que também atuou como professor. Ensinava Matemática e Literatura e muitas vezes, nada recebia, o trabalho era totalmente voluntário e nem todas as crianças tinham acesso à escola.

Lembra ainda que a chegada da energia elétrica na Redonda foi o acontecimento mais festejado, pois as pessoas viviam na escuridão, com total desconforto.

Uma curiosidade daquele período foi o surgimento de fardos de tecido e de látex , que chegavam boiando pelo mar, e que vários moradores ganhavam dinheiro com sua venda. Noticiam também tambores de plástico que traziam banha de porco.

Os mais provectos habitantes da região chamavam a Redonda de “volta santa”, porque tudo era bom no lugar, havia fartura, as coisas eram relativamente mais fáceis. A dificuldade maior era o acesso à água, pois as mulheres iam até a Ponta Grossa e a Ponta do Vigário pegar água, inclusive à noite, quando chovia e se formavam pequenos riachos. Era um trajeto perigoso, por um caminho estrito e escuro que arriscava a vida das pessoas. Quando as barrocas ou riachos ficavam próximos de secar, a água ficava mais disputada e os moradores precisavam madrugar para conseguir uma lata d´agua. Quando a chuva escasseava o sofrimento era maior; pequenas quantidades do precioso líquido eram coletados em cacimbas junto a praia, como as de Joaninha Pindu e Chico Cândido. Nessas ocasiões as roupas eram lavadas com a salobra água do mar.

O ano de 1950 foi o início de uma era histórica para moradores como Dona Maria Rodrigues, que lembra com entusiasmo a primeira vez que teve a oportunidade de participar de uma eleição na cidade do Aracati. Uma época de bonança, como se costuma dizer, referindo-se, sobretudo ao surgimento da lagosta, já no final daquele decênio, como a principal fonte de renda. Apenas três das maiores embarcações dedicavam-se à captura do valioso crustáceo e em geral utilizava-se o jereré como principal instrumento de pesca. Para os moradores, a armadilha foi introduzida na comunidade pelo Norte Americano Morgan, que veio da praia da Caponga, no Ceará, mostrando aos pescadores que a pesca da lagosta poderia ser bem lucrativa. Tanto assim que o surgimento de algumas bodegas ou pequenos comércios deveu-se ao fato do lucro aparentemente fácil da atividade comercial lagosteira.

O saudoso Pe. Marcondes de Matos Cavalcante chamava a Redonda de “Santa Luzia do Mar”. Foi exatamente sob suas orientações que substituíram uma velha capelinha de palha por um prédio mais cômodo, cuja construção, iniciada em 1951, foi concluída em 1952. O pedreiro que a edificou foi Pedro Aniceto, auxiliado pelos serventes Sebastião Valdivino da Silva e Geraldo Valdivino da Silva. Posteriormente emadeirada pelo carpinteiro “Molau”, da comunidade da Mutamba. O primeiro casamento ali celebrado ocorreu em 1953, núpcias do casal Antônio Alexandre da Silva e Maria Rodrigues da Silva, cerimônia realizada pelo então vigário Pe. Marcondes.

A situação sanitária era profundamente caótica. Conheciam pouso sobre higiene; varriam as casas, mas não apanhavam o lixo; sentavam e deitavam no terreiro, onde os porcos e galinhas circulavam e defecavam. Agiam inconscientemente. Não havia medicamentos que não fosse aqueles patenteados pela tradição caseira, além da prática da “cura” realizada por curandeiros e rezadeiras da comunidade. Dona Luzia de Jesus curava pancadas, doenças de crianças como boca ferida e caroços no corpo; O Sr. Raimundo Crispim curava a “espinhela” caída e “escupação”, dor grande nos olhos; Madrinha Sulina curava engasgo com espinha de peixe. Assim para problemas diferentes havia curandeiros diferentes. O primeiro comprimido que apareceu na Redonda foi o ”melhoral”, trazido por vendedores oriundos de Aracati ou Mossoró.

Em 1960, as mulheres passaram a dedicar-se a arte do labirinto e seus bordados, uma atividade artesanal que chegou a comunidade através de uma senhora de Canoa Quebrada e que teve como suas primeiras alunas a Dona Rosa Maria da Conceição. Mas, segundo atesta a memória coletiva, a disseminação das labirinteiras em Redonda deveu-se a Ana de Zé da Cunha, que se dedicou com afinco a passar o ofício a outras mulheres. O labirinto, além de aumentar a renda familiar, proporcionou o fortalecimento dos laços comunitários, uma vez que cada peça era feita por seis ou sete pessoas que viviam em interação constante. Porém, por falta de comércio em expansão a atividade está bastante reduzida. Para muitas senhoras detentoras dessa arte “a venda não já compensa”.

A dificuldade de acesso à povoação incentivou a comunidade a abrir uma rodagem que permitisse o tráfego de veículos automotores, então feito pelas agruras da beira mar e inteiramente dependente dos ciclos das marés.

Por volta de 1977 iniciava-se um importante processo de mudança cultural influenciada pelo Padre Diomedes de Carvalho, através da criação de grupos de jovens e de senhoras. Anteriormente o povo não tinha banheiro, nem filtro, não se alimentavam bem, criavam porcos na praia, não cuidavam devidamente da higiene. Aos poucos o Pe. Diomedes foi mudando essa história, insistindo na introdução de novos hábitos na comunidade com relação à saúde e a educação, fortalecendo a união ao passo que conscientizando os moradores da importância da limpeza de suas casas e do ambiente em geral. Incentivou a construção de banheiros e a colocação de filtros nas casas. Elaborou um projeto que aprovado, recebeu recursos da Alemanha para que fosse feito um poço ou cacimbão, melhorando a qualidade potável da água. Além do que, adquiriu fundos para a construção da primeira escola local, que foi edificada em regime de mutirão. As mulheres carregavam pedras na cabeça da Ponta do Vigário. Todos, inclusive crianças, iam até a Ponta Grossa na busca de sacos de areia de 60 quilos e conduziam até Redonda. Todo material da escola foi conseguido com grande esforço e mobilizações locais, que finalizaram as obras em 1983, com honrosa homenagem ao Pe. Diomedes – A Escola levou seu nome como símbolo da luta, resistência e esperança em dias melhores. Pode-se, pois dizer que o povo da Redonda foi reeducado pelo Padre Diomedes que ensinava até as mulheres a se vestirem, a se maquiarem. Seus sermões, nas santas missas eram verdadeiras aulas de bem estar, ajudando na formação de uma comunidade mais justa e digna (sobre Mons. Diomedes leia-se: BRANCO: 1998: 215-227).

A história de Redonda também é pautada na luta pela terra, motivo de conflitos e inquietações e ao mesmo tempo de conquistas que marcaram a identidade de seu aguerrido povo. Seus moradores contam com veemência as agitações na comunidade motivadas pelo fato da “família Porto”, de Aracati, dizer-se dona das terras de Redonda e as ter vendido para a empresa Cajunor, que por sua vez estava decidida a se apropriar daquelas áreas. A família Crispim teve reação por se considerar proprietária de parcela das terras em litígio, sendo apoiada por muitas pessoas. O movimento se tornou mais intenso quando os Modesto se uniram aos Cirilo, ocupando áreas em Peroba. A Peroba também se integrou no movimento de destruição das cercas gerando um grande conflito que resultou na lamentável morte de Manoel Capó, um dos moradores que estavam na luta, assassinado de forma estúpida pelos capangas do empresário que havia comprado as terras. Este fato gerou sentimento de união baseado no pensamento: “morreu um, agora, morrem todos”. Depois de muito sofrimento, o governo do estado do Ceará resolveu interferir e desapropriar o terreno, dando um quinhão a cada família das comunidades de Redonda, Peroba e Vila Nova. Embora a divisão da terra tenha trazido insatisfações do ponto de vista da justa partilha, este conflito fortaleceu sobremaneira o sentimento de unicidade entre os membros das comunidades.

Em 1980 a idéia da emancipação é fortalecida e encabeçada, dentre outros, pelo então Vereador José Airton Cirilo. A redonda nutria um sentimento de revolta pelo prefeito de Aracati, a época, Abelardo Gurgel Costa Lima Filho. Muitos cidadãos de Redonda mencionam o fato da reivindicação pela água potável de melhor qualidade, no que então o prefeito teria respondido: “Pra que água?! Vocês com um mar desse... coloquem açúcar nessa água!”

Quatro anos se seguiram até a realização do plebiscito, que foi a consulta a toda população votante que poderia dizer “SIM” ou “NÃO” a criação do município de Icapuí. A vitória do “SIM” trouxe euforia e grandes mudanças na educação, saúde e infra-estrutura. Para Dona Maria José da Silva e o Sr. Manoel Francisco da Silva, esse foi, sem dúvida, o acontecimento mais importante de toda a nossa história.

1990 – Foi uma década marcada pelo declínio de atividades artesanais como o labirinto, embora o final desse período seja lembrado com satisfação pelas mudanças que passaram a dispor em outras áreas, tais como, água encanada e outros serviços.

 As belezas naturais locais, somadas ao aconchego e a hospitalidade de seus habitantes atraíram muitas pessoas de outras localidades, inclusive estrangeiros, que optaram por morar em Redonda. Este, entretanto, foi o início de vários problemas pela rápida introdução de hábitos e ou costumes que não faziam parte do sistema social local. Hoje em dia os moradores reclamam de uma triste semente que foi plantada: “As Drogas”. Muitos não sabem como lidar com esse mal social que aflige muitos jovens. Alguns caminhos são apontados tais quais, investimento na agricultura e no incentivo a empresas capazes de gerar ocupação e renda. Uma conseqüência, talvez, desses imperativos, seja a crescente falta de respeito pelos idosos da comunidade, além da fragilidade nas organizações associativas.


Participaram desse processo de resgate da memória coletiva local:

Luiza Rodrigues da Silva; Germana Rodrigues da Silva; Geraldo Soares da Silva; Antônio Felício da Silva; Marina Ferreira Lima; Maria José da Silva; Manoel Francisco da Silva; Aldenor Bezerra do Nascimento; Jorge Soares da Silva; Raimundo Bonfim Braga; Francisco Bezerra Neto; Regilene da Costa; João José; Maria do Socorro da Silva; Maria Eunice da Silva; Maria do Socorro da Costa; Sônia Helena Soares da Silva; Socorro Maria da Silva; Maria Rodrigues da Silva; Maria Bernadete da Silva; Raimunda Nonata; Maria Pereira Dantas e Sueli Pasto da Silva. Em oficina realizada aos 25 de agosto de 2005, sob a moderação de Dora Farias, Elizabete Romão e Carla Bezerra.


Referência Bibliográfica

Marí (Tese de Mestrado)

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