QUITÉRIAS

Origem do nome:

A comunidade atribui a denominação a uma suposta “índia” que teria habitado a localidade.

Linha da Vida

O povoado de Quitérias é mais um dos muitos fixados ao longo de nossos 64 quilômetros de praia. Noticiam que as primeiras famílias locais foram os “Nogueira”, “Silva” e “Viana”, não se sabendo exato quando de suas chegadas. De início havia apenas seis residências, todas de palha. O rarefeito contingente recebeu algumas pessoas advindas do Estado de Pernambuco como conseqüência das retiradas de sertanejos que demandavam o litoral na triste seca do 15. Foram gente que ali se fixaram e constituíram família com diferentes ramificações.

Cerca de nove casa e um bodega, esta pertencente ao Sr. Neco, eram registradas em 1935. Outras famílias da época eram as de José Apolinário, Raimundo Maria, Maria de Beju, Raimundo Albino, Zé Mariano e do Velho Néu. Todas viviam da pesca e da agricultura de subsistência. Muitos pescadores de comunidades vizinhas como Ibicuitaba, procuravam Quitérias para constantes pescarias. A jangada à vela era o tipo de embarcação mais utilizada para as atividades piscatórias em alto mar. Esses engenhosos veleiros eram construídos na vila de Icapuí por senhores como Manoel de Senhor, Zé de Ana e Antônio. Grandes peixes eram capturados, entre os quais estavam: o dentão, sirigado, a arraia, a garopa, a cioba e o pargo.

Na agricultura desenvolviam pequenas unidades produtivas baseadas nas lavouras tradicionais como a mandioca, o feijão, a batata e o milho em áreas arrendadas pelo Sr. Betinho bem como pela família Holanda, com os quais dividiam a produção em sistema de meia.

As famosas casas-de-farinha de Ibicuitaba são lembradas como pontos convergentes de grande parte dos moradores de Quitérias e região em tempos de colheitas e desmanchas, período em que se produziam muitos gêneros alimentícios.

As mulheres se ocupavam do labirinto e da renda, vendidas para Dona Julieta, compradora residente em Ibicuitaba que revendia os produtos para cidades como Aracati e até mesmo Fortaleza. Fiavam à luz de lamparina. As rendeiras eram abastecidas pelo material que as senhoras Maria Elza e Maria de Chico Cruz traziam até a comunidade. Agregado a essa atividade, subsidiavam a parca renda familiar com a extração de hortências, da qual coletavam o pêlo e vendiam ao seu Abidon que os encaminhava para a fabricação de almofadas em praças comerciais próximas.

A assistência médica era precária. Os enfermos eram transportados em redes e a cavalo para cidades como Aracati ou Mossoró ou de barco para Areia Branca. Na região havia apenas um farmacêutico, o Sr. Joventino Moreira, com residência fixa na povoação de Ibicuitaba, onde consultava e medicava a população. Por volta de 1950 registra-se o aumento do uso de muitas ervas medicinais aplicadas na cura de várias moléstias.

As mulheres grávidas davam à luz em suas próprias casas, auxiliadas por parteiras como as senhoras Marcela, Maria de Joãozinho Leocádio e Maria Félix. Essa era uma atividade de alto risco, fato pelo qual muitas mulheres e crianças morriam no ato do parto.

As residências estavam dispostas sobre alvas dunas cobertas apenas por uma vegetação rasteira, como a salsa, e bem afastadas do mar que ao longo dos anos abriu uma espécie de canal profundo, dando passagem às jangadas que alcançavam terra adentro, posteriormente obstruído pelo assoreamento devido a algumas mudanças geográficas. Na época poucos davam o luxo de possuírem casas cobertas de telhas. Eram moradores que se restringiam a três ou quatro pessoas como o Sr. Abidon, Raimundo Neo e Agemiro. A grande maioria acomodava-se em precárias unidades habitacionais de palha e cobertas como tal. Não raro essas simples estruturas eram abaladas pelo irredutível avanço do mar.

Por meados da década de 60 Quitérias foi ponto de parada e apoio de embarcações que traficavam contrabandos diversos como cargas de farinha, café e whisky, vendidos às pessoas que ali chegavam de diferentes lugares. A participação de algumas pessoas da comunidade facilitava as negociações clandestinas, cujos contatos segundo atestam seus habitantes, deveu-se ao Sr. Francisco Firmino. Foram transações que acarretaram sérias conseqüências para o pequeno povoado que teve de conviver por um mês com forças militares, destilando medo e insegurança aos moradores que mal saiam de suas casas. Até as atividades pesqueiras diminuíram, assoladas por esse momento difícil.


“Os soldados eram valentes com os moradores. Queriam te todo jeito saber quem era os contrabandistas”.


Foi somente com a devida intervenção do Oficial da Marinha, o Tenente João José Viana, filho da região, que se pode contornar a desagradável situação.

Em 1970 intensificou-se o fluxo comercial com cidades como Areia Branca, no Rio Grande do Norte. Uma gama de produtos como ovos, galinha, palha, melancias, batata, gergelim, além de patoral (ração natural para animais) e até porcos, eram conduzidos para a comercialização naquela praça. Estava ainda no rol desses gêneros a famosa “cachaça do Sr. Manoel de Neco Cunha”, fabricada nos alambiques da Mutamba. Numa dessas investidas, registrou-se uma trágica ocorrência com lamentável saldo de uma morte por afogamento, o do sr. Clicério, dono da embarcação que naufragou em alto mar.

Em Quitérias, como na maior parte da região, o povo era sem instrução algumas das letras. A primeira professora de que têm notícia é Dona Maria de Júlio, residente na localidade de Morro Pintado e que lecionava na casa do sr. Raimundo Albino. A segunda memorável professora foi Dona Socorro Fernandes (Socorro de Expedito Damião), que desafiava as condições impostas pela falta de estrutura e por vezes dava aulas ao ar livre, sob os coqueirais. Posteriormente, a comunidade passa a contar com a presença do professor Luis Cirino, da localidade Tremembé, acomodado em uma pequena sala construída ainda sob a administração do prefeito do Aracati. Depois ampliado, o local transformou-se na Escola Municipal de Quitérias.

1990 – A energia elétrica chega à comunidade.

 Edificação de 17 casas e criação do conjunto habitacional.

 Criação da I Associação de moradores, tendo como presidente o Sr. Airton Paz (Airton de Damião).

 Construção da quadra de esportes (pólo de lazer para os jovens e centro de muitos eventos sociais) inaugurada com grande festa na comunidade

 Mutirão de limpeza da praia.

2000 – Coleta de lixo presente.

2001 – Telefone Público e água encanada do SAAE (Sistema Autônomo de Água e Esgoto).

2004 – Instalação de uma unidade do Projeto Peixe Boi Marinho – Coordenado por Solange.

 Formação de um Grupo de Jovens na Comunidade.

2005 – A comunidade é inserida no Projeto Mulheres em Movimento.

 Pavimentação da via pública de acesso a Quitérias.

Participaram desse processo de resgate da memória coletiva local:

Quem ?

Em oficina realizada aos 14 de setembro na Escola Municipal de Quitérias, sob a moderação de Dora Farias e Rosineide Rebouças.



Referência Bibliográfica


FREITAS FILHO, Manuel de. A aldeia do areal: história e memória de Ibicuitaba, Icapuí, Ceará. Fortaleza, CE. Ed. BN. 2003.

BEZERRA, Cláudio Alberto Barbosa. Impacto social da pesca da lagosta com compressor em Redonda – Icapuí – CE. (Monografia de Graduação em Engenharia de Pesca) Centro de Ciências Agrárias. Departamento de Engenharia de Pesca. UFC – Fortaleza-CE, 1992.

OLIVEIRA, Ocivá José de. Sociedade e economia na atividade lagosteira de Icapuí – CE. (Monografia de Especialização em Desenvolvimento Regional) Pró-Reitoria de Pesca e Pós-Graduação. UERN. Mossoró – RN, 1994.

_______________________. A atividade lagosteira no município de Icapuí-CE: a situação de vida do pescador, suas contradições e perspectivas. Revista Expressão, Ano XXX, Nº 1 e 2. UERN. 1999.

ANDRADE, Luiz Odorico Monteiro de. & GOYA, Neusa. Sistemas locais de saúde em município de pequeno porte – a resposta de Icapuí. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 1992.

SILVA, José Airton Félix Cirilo da. Icapuí uma história de luta. 1ª ed. Gráfica Encaixe. Fortaleza – CE, 1998.

 
 
 
 
 
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