PONTA GROSSA

Origem do Nome: Denominação proveniente dos aspectos geográficos locais, relacionados à formação da cadeia de falésias que avançam mar adentro, definindo uma grande ponta, visível a milhas de distância da costa.

Linha da Vida

Importantes descrições e referências são feitas à Ponta Grossa na história das navegações, que ao longo dos anos vem apaixonando estudiosos e pesquisadores, na busca de respostas para eventos que hoje ainda os desafiam. “O Cabo da Jabarana”, como também é conhecida, conta com densas abordagens que vão desde a “descoberta do Brasil” pelo espanhol Vicente Pinzón em 1500, até a chegada e fixação dos pioneiros na desbravação do território então conhecido por Icapuí. (ver Thomas Pompeu Sobrinho: Proto-história Cearense. 1980. Ed. UFC, Fortaleza. In FREITAS FILHO, Manuel de. A Aldeia do Areal: história e memória de Ibicuitaba, Icapuí, CE. 2003, BNB, Fortaleza. Cap. II p. 27 – 67. Lia-se também FERREIRA NETO, Cicinato: Estudos de história jaguaribana. 2003, Ed. Premius, Fortaleza. Fortificações no litoral jaguaribano, p. 185).

Segundo seus mais antigos moradores, a comunidade surge com a chegada da Família do Sr. Neu Pindú, por volta de 1910, que inicialmente teria se estabelecido num trecho próximo ao Retiro Grande, em uma área conhecida como “Refúgio do Povo”, sendo que a atual Ponta Grossa ainda não era povoada. Há no entanto, outras declarações que aludem à estada por tais paragens do Capitão-Mor Zé Rodrigues no final do século XVIII e sobre o qual muitas histórias são contadas. Na verdade tratava-se de Manoel José Rodrigues Braga, português natural do Arcebispado de Braga e patenteado com as honrarias de Capitão em 1783, responsável pela defesa e mantença da ordem na região compreendida entre a Ponta Grossa, Retiro Grande e Pequeno e que posteriormente retirou-se com sua prole pra o Vale da Mata Fresca. (In FREITAS FILHO, Manuel de. A Aldeia do Areal: história e memória de Ibicuitaba, Icapuí, CE.2003, BNB, Fortaleza. Cap. II, p. 84)

As condições locais impeliram os primeiros habitantes a tirarem seu sustento da pesca, da agricultura e criação de subsistência (caprinos e ovinos), além da caça à fauna comestível como peba e tatu, já que as atividades comerciais eram parte de uma realidade distante. Ali, a bem dizer, tudo era feito de forma artesanal, da conservação de alimentos à fabricação dos utensílios que necessitavam, graças aos conhecimentos adquiridos e transmitidos no decurso do tempo, de geração pós-geração. Além do peixe ou pescado, mantido a sal por semanas, para não se perder, um outro tipo de culinária da época extraída do mar era o “catapu”, uma espécie de concha colhida na praia com a vazante das águas.

Precursor da atual povoação pontagrossense, Neu Pindú, que a memória coletiva afirma ser descendente de portugueses, pelos idos de 1920, atraído pela permanente cantiga de sapos, descobrira a certa distância do núcleo do povoado uma importante fonte de água doce na região, utilizada até os dias atuais por toda a comunidade, além de ter se tornado um atrativo a mais para inúmeros curiosos e turistas que a visitam.

Com o irredutível avanço do mar e a constante escassez de água potável, os antigos moradores se viram obrigados a abandonar o “Refúgio do Povo” e transferir suas casas para uma área mais cômoda, próxima àquela vertente d´água e mais protegida da maré. Surgiu assim a atual Ponta Grossa, que teve sua fundação ao longo de uma grande e admirável ponta de falésia. Ainda na era de 1920 ocorre a chegada da “Família Crispim” através de oito irmãos que vêm se multiplicar na Ponta Grossa, somando-se aos “Pindú” e “Carneiro” para formação de um complexo processo de miscigenação e parentesco dele decorrente.

É por meados de 1940 que temos advento da comercialização de uma gama variada de produtos vindos de Cascavel, tais como rapadura, carne de charque, mangas, etc. O fato deveu-se ao empreendedorismo do Sr. Genésio Queiroz que regularmente passa a visitar a comunidade. Além disso, mereceu destaque a referência a outros vendedores vindos de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, que contornando a velha costa, de lugar a lugar, transportavam as e outras novidades, ao som de chocalhos e cantigas, atraindo e divertindo todos ao seu alcance. Era o glorioso tempo dos “Comboios Mercantes”, compostos por tangedores e dezenas de burros, cavalos e jegues justapostos em uma admirável formação serpentina desafiando os traços da irregular topografia litorânea.

Nesse ambiente de fronteiras e sem exigências de requisitos que não fosse a adaptação a ambiência local, vem à tona em 1958, a possibilidade de dinheiro mais farto com a captura da lagosta para comercialização, sinalizando muitas mudanças e algumas melhorias para a pequena vila. É através do norte-americano Morgan, também principal comprador, que a comunidade é induzida à comercialização do crustáceo. Sua primeira providência é a construção de um grande barracão na chamada “Ponta Grossa de Cima”, apto ao armazenamento adequado do produto.

O sistema habitacional era precário e irregular. Todas as casas eram erguidas de palhas de coqueiro, palmeira abundante na região. Nas alturas de 1962 é construída a primeira habitação de “taipa de bofete” (barro jogado e socado fortemente com as mãos) ainda com coberta de palha, propriedade do Sr. Raimundo Crispim. Em 1970, a novidade era pisos de cimento que aos poucos foram substituindo a areia alojada em todos os cômodos residenciais. Enfim, é por meados da mesma década que a comunidade assiste a construção do primeiro prédio de alvenaria e coberto de telha, um advento marcando ainda pela chegada da primeira professora vinda do Aracati, de quem Icapuí era distrito.

As primeiras aulas foram improvisadas numa sala da casa de João Crispim e cuja duração, lamentavelmente, foi apenas de três meses. Não obstante essa desilusão nas perspectivas educacionais, em 1975 o povoado ver imponente, mais um destrutível avanço do mar, destruindo casas como que afogando sonhos e impelindo seus habitantes a procurar abrigo em localidades próximas. Acontecimento que a ninguém era dado prever. Surpresas! O que restou foi tudo aquilo que ainda se poderia chamar de salto da sorte. Não restava outra coisa senão apelar através do fervor da prece ou de um clamor em forma de canção, pedindo providências aos céus. Remonta desse acontecimento a composição “Praia Nordestina”, autoria do Sr. Joaquim Crispim de Freitas (Seu Dadá), um autodidata na arte de cantar, compor e tocar.


Praia Nordestina

Vamos orar
Pra essa maré se afastar
Pra nossos prédios deixar
Porque Deus o mar domina
Também deixar esse lugar
Santo do Santo
Irmão prega e eu canto
Nesta praia nordestina

Vamos orar
Com o joelho no chão
Contrito de coração
Homem, mulher e menina
Se nós orar e em Jesus confiar
Nós veja a maré deixar
A nossa praia nordestina. (CD Icapuí 20 anos: 2004)



1920 – Nascimento da comunidade após a chegada e transferência da Família de Neu Pindú do lugar “Refúgio do Povo” para uma área mais próxima ao mar, protegida por uma abra denominada Ponta Grossa ou Cabo da Jabarana.

1945 – Novos produtos comerciais chegam na comunidade através dos tropeiros e seus comboios mercantes vindos de Cascavel, no Ceará e Areias Branca, no Rio Grande do Norte.

1950 / 1960 – Surgimento das primeiras casas de farinha, verdadeiras unidades inventivas de produção para enriquecimento da culinária local.

1958 – A lagosta como fonte de riqueza potencial para comercialização no exterior e ao lado dela novas possibilidades de ocupação e renda para a comunidade que alcançou um relativo padrão na qualidade de vida.

• Primeiras investidas contra o Protestantismo na comunidade e região, movidas pelo Franciscano Frei Álvaro Formiga e apoiadas pelas autoridades católicas locais.

1961 – Consolidação do Protestantismo com a construção de um templo da Assembléia de Deus.

1962 – Primeiras melhorias no sistema de habitação local.

1970 – Construção da BR 304, possibilitando a conclusão da CE uma década depois, e melhorando desta forma acesso às cidades vizinhas.

1975 – A telha como uma novidade possível na cobertura das casas.

• Advento do ensino das letras com a chegada da primeira professora. Mas, a Escola, que concentraria a melhor de suas intenções, ainda era um aspecto instável e não prosperou.

• Intenso avanço do mar, destruindo casas e forçando os habitantes a abandonarem o local.

1986 – Início de uma nova era, novos rumos e novas esperanças alcançam nosso povo; Icapuí passa por um grande momento histórico, é chegada da sua definitiva liberdade após anos ligado ao Aracati.

• A partir da emancipação, Ponta Grossa recebe novamente uma escolinha, que mais uma vez funcionava na casa do Sr. João Crispim. Depois de algum tempo passa a ocupar a nave da Igreja local e por fim para uma sede própria com uma professora chamada Ozanete, de apenas 16 anos, nativa da Ponta Grossa. Outras professoras locais tomam à frente da educação, entre elas as Sras. Enerci e Maria Lúcia que lecionaram de 1988 a 1990, utilizando um método chamado “multiseriado”, onde numa única sala ou turma se alfabetizavam crianças, adolescentes e adultos de 1ª a 4ª Série.

• Outra conquista, foi a devida assistência à saúde, através das agentes locais de saúde, pondo fim a um dramático problema que as pessoas enfrentavam, uma vez que tinham de levar os pacientes até a cidade de Aracati, fosse a cavalo, a pé ou de carona nos carros que eventualmente vinham fazer o comércio na comunidade.

1990 – Ponta Grossa de organiza para discutir e planejar a criação de sua primeira Associação de Moradores.

1992 – Luz e energia elétrica nas casas, bem como água potável e de melhor qualidade, graças à iniciativa do Grupo Edson Queiroz que fez a doação de uma área de 18 ha da Fazenda Cascaju para que o povo construísse seu próprio poço.

1996 – A Petrobrás constrói uma estrada que passa a dar acesso à comunidade.

• Capacitação dos professores garantindo mais qualidade no ensino. O envolvimento e a participação de todos é que faz a diferença.

• Ponta Grossa é a primeira comunidade beneficiada com liberação de recursos do Projeto São José, para criação do primeiro viveiro de mar aberto do mundo para criação de lagosta.

1998 – É criada a Associação Turística de Meio Ambiente, embora o planejamento turístico fosse algo em discussão desde 1980.

• Criação da Lei 00/98 que instituiu a APA – Área de Proteção Ambiental, aos 16 de Janeiro do mesmo ano.

• Descoberta de importantes Sítios Arqueológicos movidos pela curiosidade e paixão de nativos como o pescador Sr. Josué Pereira Crispim.

• Os jovens procuram se capacitar e ampliar seus conhecimentos; a comunidade passa a ter respaldo junto a ONG´s e órgãos que conhecem e investem em sua história.


Participaram deste resgate e construção coletiva da memória local

Eliabe Crispim da Silva; Rute Carneiro da Silva; Miriam Crispim da Silva; Otoniel Crispim da Silva; Josué Pereira Crispim; Ana Ferreira Crispim; Esaú Pereira Crispim; Maurílio Crispim de Lima; Malaquias Crispim da Silva; Oseias Ferreira de Freitas; Hilquias Crispim da Silva; João Crispim da Silva; Simão Crispim, Silas Carneiro da Silva. Em oficina realizada aos 20 de agosto de 2005, sob a moderação de Leinad Carbogim, Dora Farias, Rosa Rebouças e Janaína Almeida.

Referência Bibliográfica

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FERREIRA NETO, Cicinato. Estudos de história jaguaribana: documentos, notas e ensaios diversos para a história do Baixo Jaguaribe. Fortaleza, CE. Ed. Premius. 2003.

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Marí (Tese de Mestrado)

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SOUZA, João Paulo de. O protestantismo em Icapuí, Ceará. (Monografia de Conclusão do Curso de Bacharelado em Ciências Sócias da UERN, Mossoró, RN).

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ANDRADE, Luiz Odorico Monteiro de. & GOYA, Neusa. Sistemas locais de saúde em município de pequeno porte – a resposta de Icapuí. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 1992.

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