PEIXE GORDO

Origem do nome:

A comunidade desconhece a razão do topônimo. Porém, ao que tudo indica deve está relacionado à farta captura de peixes na localidade. Essa, aliás, foi uma referencia constante nos depoimentos de seus habitantes.

Linha da Vida

Para Dona Julinha, de 80 anos, antes havia um outro nome para designar o povoado. Seu pai, o Sr. José Raimundo da Silva, chegou em Manibu casado com dona Francisca Barbosa da Silva e foi uma das primeiras famílias a morar na praia. José Raimundo trabalhava no engenho da vila de Peixe Gordo, um pouco mais afastada da praia, fazendo rapadura e outros derivados da cana. Como agricultor plantava feijão, batata, mandioca e melancias. Era homem afeito as lide do mar, pescador nato. Na época Dona Julinha contava apenas com sete ou oito anos, mas lembra da fartura de peixes na localidade pra onde acorriam muitas pessoas de lugares diversos em busca do pescado capturado fosse de tresmalho ou embarcado. Quando não eram totalmente absorvidos pelas necessidades locais os produtos eram salgados (após pisarem o sal vindo das salinas da região) e levados para o comércio em outros lugares como Tibau, Areia Branca e Mossoró.

Outras famílias tiveram um papel importante no efetivo povoamento e formação da comunidade de Peixe Gordo Praia, entre as quais, os Rebouças, Cocos e Malaquias.

As mulheres ateavam-se na lavagem de roupas nas casas, trocando o serviço por cuias de farinha. Outras trabalhavam com o artesanato, cuja principal matéria prima era o ticum, a palha de carnaubeira e a hortênsia. Em geral, todas se dedicavam ao labirinto que tinha como mestra a Sra. Isabel da Mata, que muito contribuiu para a difusão da atividade na região.

As residências não eram nada confortáveis; todas construídas de palha, às vezes mui distantes uma das outras. A higiene era irregular, acarretando várias conseqüências à saúde. A água, salobra, provinha das cacimbas, cavadas com enxadas e cobertas de palha. Um ritual que remonta às memórias do ano de 1910 e que durou até 1980. A iluminação era proporcionada com a utilização de óleo de cação e toda comida era cozida em fogões artesanais movidos à lenha.

A principal assistência feita na comunidade aos enfermos e gestantes era aquela prestada pelos conhecimentos tradicionais de Dona Julinha, rezadeira e parteira “... desde os 14 anos”, afirma a sábia senhora. O primeiro parto, lembra com satisfação, “foi as fia de Zé Valentino, duas menina gêmia”. Quando a reza não dava jeito e os remédios caseiros (chá de cidreira; chá de casca de laranja e outros de folhas de mato) não sinalizavam melhora, procurava-se conduzir as pessoas para Areia Branca ou Tibau.

Aproximadamente por volta de 1958 surge no povoado a bodega de “seu Jospiniano”. Uma tapera de barro socado que vendia farinha e rapadura. Os réis ou o comércio em termos monetários (dinheiro) era difícil. Durante décadas o povo foi afeito a simples troca de bens necessários para a alimentação. Permutavam feijão e rapadura pelo peixe e vice-versa.

Na década de 60 habitantes como Manuel Batista dos Santos e Antônia Maria da Conceição também passaram a residir na praia de Peixe Gordo, uma região precária de habitações. O período ainda é marcado pelo temível avanço do mar que danificou algumas residências, postas cada vez mais morro adentro. Nos anos 80 o fenômeno destruiu um total de seis casas e continua a ameaçar.

A primeira das residências de tijolos, cobertas de telha pertenceu ao comerciante Jospiniano que a edificou por meados de 1970. Foi por aqueles idos que Jospiniano ampliou seu ramo de negócios e passou a comprar “lagosta”, produto já em bastante evidência na região. A captura do crustáceo, segundo os moradores locais, conseguiu melhorar a vida de muitas pessoas. A corrida para a pesca da lagosta surpreendentemente fez com que atividades como a agricultura ficasse em segundo plano.

Em 1980 algumas novidades ligadas à tecnologia foram introduzidas na comunidade. O fato deveu-se a Dona Maria que instalou um cata-vento para fornecer energia para uma matéria que alimentava um aparelho de TV, o primeiro de que se tem notícia no povoado.

Havia uma dificuldade imensa de comunicação com a localidade, feita apenas através de corredores de areia, por vezes atravessando lagoas e riachos. As crianças eram as mais prejudicadas, segundo atestam, pois nessas condições o acesso a escola era quase impossível. Quando ocorria de irem a aula levavam duas vestimentas, pos na maior parte molhavam-se por completo e tinham que trocar de roupa.

1984 – José Airton visita a comunidade e aconselhou a compra de uma bomba d´agua. A Construção de um poço profundo com motor capaz de puxar água só foi possível após a emancipação política de Icapuí. No entanto, devido às condições péssimas do precioso líquido, o seu destino continuou sendo apenas para a lavagem de roupa e louças. Um carro pipa que vinha do CVTP (comunidade do Belém) passou a abastecer a população até 2003.

1994 – Chegada da energia elétrica. A primeira casa beneficiada com o advento foi a de Dona Maria.

1998/2000 – Construção de uma via de acesso à comunidade, pavimentada de piçarra.

 O Sr. Joãozinho de Brisa destaca-se como o principal representante do ovoado.

 Moradores locais freqüentam a Associação de Moradores da Vila de Peixe Gordo que teve como primeiro presidente o Sr. Oceliano Moreira.

2004 – Cobertura do Sistema de abastecimento d´agua através do Serviço Autônomo de Água e Esgoto – SAAE.

2005 – Construção da via pública de acesso asfaltada até a praia.

Participaram desse processo de resgate da memória coletiva local:

Maria Rodrigues e Dona Julinha. Em oficina realizada no dia 01 de outubro de 2005, sob a moderação de Dora Farias e Rosa Rebouças.

Referência Bibliográfica

FREITAS FILHO, Manuel de. A aldeia do areal: história e memória de Ibicuitaba, Icapuí, Ceará. Fortaleza, CE. Ed. BN. 2003.

FERREIRA NETO, Cicinato. Estudos de história jaguaribana: documentos, notas e ensaios diversos para a história do Baixo Jaguaribe. Fortaleza, CE. Ed. Premius. 2003.

SILVA, José Airton Félix Cirilo da. Icapuí uma história de luta. 1ª ed. Gráfica Encaixe. Fortaleza – CE, 1998.

ANDRADE, Luiz Odorico Monteiro de. & GOYA, Neusa. Sistemas locais de saúde em município de pequeno porte – a resposta de Icapuí. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 1992.

HAGUETTE, André. VIDAL, Eloísa M. (org.). Os caminhos da municipalização no Ceará: uma avaliação. UFC, Casa de José de Alencar, Programa Editorial. Fortaleza, CE. 1998.

BEZERRA, Cláudio Alberto Barbosa. Impacto social da pesca da lagosta com compressor em Redonda – Icapuí – CE. (Monografia de Graduação em Engenharia de Pesca) Centro de Ciências Agrárias. Departamento de Engenharia de Pesca. UFC – Fortaleza-CE, 1992.

OLIVEIRA, Ocivá José de. Sociedade e economia na atividade lagosteira de Icapuí – CE. (Monografia de Especialização em Desenvolvimento Regional) Pró-Reitoria de Pesca e Pós-Graduação. UERN. Mossoró – RN, 1994.

_______________________. A atividade lagosteira no município de Icapuí-CE: a situação de vida do pescador, suas contradições e perspectivas. Revista Expressão, Ano XXX, Nº 1 e 2. UERN. 1999.
 
 
 
 
 
Sede Administrativa
FUNDAÇÃO BRASIL CIDADÃO PARA A EDUCAÇÃO,
CULTURA, TECNOLOGIA E MEIO AMBIENTE
Rua Osvaldo Cruz, 01 Sala 1508 - CEP 60125-150
Telefax (85) 3268.2778
Email: faleconosco@brasilcidadao.org.br
Website: www.brasilcidadao.org.br
Base Operacional de Icapuí
Rua Floriano Monteiro, S/N - Praça da Matriz
Centro - CEP: 62.810-000 - Icapuí / Ceará
Email: faleconosco@brasilcidadao.org.br
Website: www.brasilcidadao.org.br