MELANCIAS DE CIMA

Origem do nome:

Topônimo relacionado às propriedades férteis do local, mais precisamente ao grande cultivo de melancias.

Linha da Vida

Para moradores como o Sr. Geraldo Malaquias, a comunidade começa sua vida sendo chamada de “Mosqueiro”, uma designação proveniente da grande quantidade de salga do pescado que juntava muitas moscas. Posteriormente, com a iniciativa do plantio de melancias mais nos altos dos outeiros (morros) circundantes, surge a idéia da sinuosa divisão, atribuída, aliás, ao Padre Diomedes de Carvalho, que passou a pensar em “Melancias de Cima” e “Melancias de Baixo”. A simbólica divisa entre as duas comunidades, que têm as mesmas raízes de origem, passou a ser chamada de “Pajeú”, nas extremas da residência do velho Raul, pai de Dona Raimunda Matos e Dona Lourdinha.

Os primeiros habitantes da comunidade dividiam-se em duas casas, a da viúva Salete e a do Sr. Antônio Abílio, revelando a baixa densidade demográfica local. Seus habitantes ainda lembram que até 1940 não existiam moradores em Melancias-Praia. Hoje, no entanto, cerca de 14 famílias dispõe-se apenas no corredor das Melancias de Baixo (Praia), registrando-se em contra partida, a migração de alguns grupos familiares para o assentamento do Gravié, município de Icapuí.

Segundo pessoas como Dona Santinha, 91 anos, Dona Lourdinha e a Sra. Maria Alice, Melancias foi um povoado cuja base sustentação foi alicerçada na agricultura e pesca de subsistência, não fugindo a regra dos demais povoados praianos estendidos ao longo de nosso litoral. No setor agrícola, além do famoso cultivo das melancias, plantavam feijão, milho e batata. Utilizavam ainda o gergelim, que depois de extraído era secado e queimado, servindo como rica fonte de alimento, ao passo que de suas cinzas era feito uma espécie de sabão. Posteriormente, os engenhos se tornaram mui comuns. Havia a fabricação da cachaça, do puxa-puxa, rapadura, mel e batida. O Sr. Miguel Aniceto era o principal responsável pela dinâmica e organização dos derivados da cana, também cultivada na região. Os produtos eram comercializados em Grossos, Mossoró e Areia Branca. Na atividade pesqueira os paquetes munidos da coragem e da esperança dos pescadores e das para a captura do peixe, deixavam a costa no raia do sol, com retorno à tardinha. Muitos aproveitavam o claro da lua e pernoitavam no mar. Além desses recursos utilizados na pesca havia armadilhas como tresmalhos e os currais. Os pescados eram fartos! Bagres, pescadas, paruns, espadas, biquaras e arraias, apenas para citar algumas das muitas espécies capturadas.

As mulheres estavam aptas às atividades de labirinto e renda, ofícios repassados de geração e geração sob a orientação paciente de mestras como Dona Maria Jardilina. Essa foi uma atividade que atingiu seu ápice entre as décadas de 1940 e 1990.

Mas a vida, não há de negar, era mesmo de grandes dificuldades. Para se ter uma idéia, basta dizer que para comprar gêneros como a farinha, em tempos menos favoráveis, e o gás para prover a iluminação, tinha-se que percorrer quilômetros a animal e aventurar-se até a cidade de Limoeiro do Norte, no interior do Estado.

O memorável Padre Clicério da Costa Lobo, fundador do Oratório da Sagrada Família, hoje Capela na mesma comunidade, era um verdadeiro apaixonado pelas doenças da alma com pelas enfermidades do corpo. Já bastante provecto, em uma simples casinha abaixo dos coqueirais, ensinava ao povo muitas receitas medicinais na tentativa de amenizar o sofrimento dos que contraiam os mais variados tipos de mazelas. O saudoso sacerdote faleceu em 1916, em Melancias e foi sepultado no interior do Oratório que fundou, segundo sua última vontade (Leia-se BESSA. 1998: 114 – 116).

Na inesquecível década de 1930, registra-se um significativo impacto destrutivo da população local, conseqüência de um pungente surto de malária que avassalou toda região. Sem assistência médica o povo e, sobretudo, crianças e velhos, padeceu às agruras da peste (Veja: FERREIRA NETO. 2003: 262. & FREITAS FILHO. 2003: 219-222). As consultas devidamente clinicadas eram realizadas em Mossoró, no Rio Grande do Norte, um acesso que só era possível a pé ou a animal. Em anos ulteriores, por algum tempo apenas, as ações do enfermeiro Dimas Pimentel, residente em Olho D´Agua, ajudaram muitos a conseguirem a cura. Mas dadas às condições locais, em geral o povo estava mesmo afeito aos tradicionais medicamentos caseiros e aos curandeiros e rezadeiras, ou melhor, dizendo, a gente de fé como às senhoras Antônia Fernandes Maia, Maria Jardilina e Dona Maria Malaquias. Muitas declarações relutaram o alto índice de mortes de mulheres no parto. Entre as parteiras locais estavam Ana Maria da Conceição, além das já citadas Jardilina e Maria Malaquias.

A educação mal se definia e estava muito a desejar. Mas neste sentido, personalidades como Mariinha Correia e Dona Branquinha, que lecionaram em suas próprias residências, são ressalvadas com estima e apreço, pela coragem e empenho com que se dedicavam a instruir o povo.

Entre as principais festividades religiosas, destacava-se a comemoração da patrona da comunidade, a Sagrada Família de Nazaré, n o mês de janeiro, com direito a barracas de partidos e pastoril, com suas saudáveis competições. A principal professora do Pastoril era Dona Lourdinha. Entre os períodos de 1930 a 1940, aconteceu a ampliação do Oratório cristão local. Também datam daqueles idos a construção do salão paroquial que se deu em regime de mutirão, envolvendo homens e mulheres, bem como a residência dos padres ou a casa paroquial. Um dos marcos da fé cristã do povo de Melancias de Cima é o reverenciado Cruzeiro, posto no cimo de um alto morro na comunidade. O lenho sagrado foi, segundo atestam, resultado das Santas Missões Populares em que muitos sacerdotes se empenhavam realizar, entre os quais havia, inclusive, padres alemães. Os moradores locais atribuem ao padre Benedicto a famosa benção do Cruzeiro.

A partir de 1965, aproximadamente, foi incentivada na comunidade a atividade da apicultura ou criação de abelha, cujos precursores foram os senhores Miguel e Elí Rebouças. Ao lado disso, registrou-se a consistente extração da cera da carnaúba, bem como do beneficiamento da utilizável palha da palmeira, da qual eram confeccionados vassouras e chapéus, vendidos para Jaguaruana e Mossoró. Um outro ramo do setor econômico, diga-se, mais rentável, foi o coco, que deixou pelo menos a princípio, uma boa impressão pela movimentação de muitos réis nos cofres de inúmeros proprietários (Leia-se: FREITAS FILHO. 2003: 200-201).

Um dos eventos marcantes citado pela memória local foi a chegada e as ações do Padre Diomedes de Carvalho, que passou a investir num trabalho de conscientização da população, sobretudo, na prevenção de doenças. Angariou recursos da Alemanha, com os quais realizou cursos de primeiros socorros, além do que insistiu no necessário de instrumentos sanitários como filtros, banheiros e fossas (sobre Mons. Diomedes leia: BRANCO. 1998: 215-227).

1986 – Surge os “Agentes de Saúde” após a seleção feita pela Secretaria de Saúde do Estado do Ceará.

 Marcos de mudanças na Educação e Saúde atribuídas, sobretudo, a emancipação política de Icapuí.

1990 – Chegada da água encanada.

1999 – Criação da Associação de Moradores.

2000/2003 – Ampliação da rede de energia elétrica até a praia.

 Reforma na escadaria do Cruzeiro.

Participaram desse processo de resgate da memória coletiva local:

Dona Santinha e Geraldo Malaquias, Dona Lourdinha e a Sra. Maria Alice. Em oficina realizada em 03 de outubro de 2005, sob a moderação de Dora Farias e Janaína Almeida.

Referência Bibliográfica

FREITAS FILHO, Manuel de. A aldeia do areal: história e memória de Ibicuitaba, Icapuí, Ceará. Fortaleza, CE. Ed. BN. 2003.

FERREIRA NETO, Cicinato. Estudos de história jaguaribana: documentos, notas e ensaios diversos para a história do Baixo Jaguaribe. Fortaleza, CE. Ed. Premius. 2003.

SILVA, José Airton Félix Cirilo da. Icapuí uma história de luta. 1ª ed. Gráfica Encaixe. Fortaleza – CE, 1998.

ANDRADE, Luiz Odorico Monteiro de. & GOYA, Neusa. Sistemas locais de saúde em município de pequeno porte – a resposta de Icapuí. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 1992.

HAGUETTE, André. VIDAL, Eloísa M. (org.). Os caminhos da municipalização no Ceará: uma avaliação. UFC, Casa de José de Alencar, Programa Editorial. Fortaleza, CE. 1998.

BESSA, Dom Pompeu Bezerra. A antiga Freguesia do Limoeiro: notas para sua história. Premius Editora. Fortaleza-CE. 1998.

BRANCO, Mons. João Olímpio Castello. O Limoeiro da igreja. Ed. Minerva. Fortaleza-CE. 1998.

 
 
 
 
 
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