BARREIRAS DE CIMA
Origem do nome:
As indicativas toponímicas: Barreiras – “de Cima” e Barreiras - de “Baixo”, nos faz crer nas mesmas raízes de origens de ambas as comunidades, de forma que o atual uso dos sufixos (“Cima” e “Baixo”) cumpre apenas um papel meramente pragmático a uma simbólica “divisão” adotada ao longo dos anos. É compreensível por essa razão que o povoado também não tenha feito referência alguma à sua origem toponímica aquela que parece ser uma designação geográfica da formação de “barreiras”, elevações levemente inclinadas lançadas por entre cômoros encimados de vegetação escassa e rasteira que compõe o quadro paisagístico local. (Veja-se “Barreiras de Baixo” & Cf. SILVA. 1993. STUDART FILHO. 1969: 45-61. FREITAS FILHO. 2003: 96)
Linha da Vida
O povoado tinha suas atividades voltadas basicamente para a pesca e agricultura, de modo que as condições sócio-econômicas em praticamente iguais para todos que, aliás, levavam uma vida muito difícil.
A pesca era, por assim dizer, a atividade mais comum entre seus moradores. Utilizavam os paquetes para vencer as agruras do mar. Essas embarcações madrugavam para voltar apenas ao anoitecer. Crustáceos como as lagostas serviam apenas para acrescentar a variedade do tradicional cardápio à mesa.
Já nas áreas de vazante, propícias à agricultura, plantava-se milho, feijão, melancias, jerimum, batata e até banana. Quando a safra era realmente boa procurava-se vender o excedente. Além dessas culturas havia ainda a cana e o algodão. O primeiro raro econômico diretamente ligado à agricultura foi o cultivo do caju em meados do decênio de 1970, graças a recursos do Governo do Estado do Ceará para construção de industrias de beneficiamento. Quem não lhe dava com o mar foi para o caju, uma alternativa viável, pelo menos a princípio.
Em geral as mulheres ocupavam-se dos serviços domésticos e do labirinto, além de confeccionarem trança de palha para chapeis, esteiras e surrões, tudo de palha de carnaubeira, palmeira abundante nas redondezas.
Na década de 1940, muitos fardos de borracha encalharam na praia. Esse foi um evento que a memória coletiva guardou bem, fazendo alusão a uma guerra (a 2ª Guerra Mundial) e ao naufrágio de navios carregados do produto que serviriam supostamente de trincheiras nos longínquos campos de batalha.
No fim dos anos 50, o Norte Americano Morgan passa a financiar os paquetes que tinham como objetivo agora a pesca da lagosta para o comércio que se abria para o mundo. Barreiras foi uma das primeiras praias a negociar a lagosta. A pesca se dava através do uso do manzuá. Nascia, portanto, uma nova atividade produtiva para quem confeccionasse a armadilha em grande quantidade.
Na comunidade o Professor Abismar é citado como um dos baluartes na educação. Pago pelo SUDEPE, ele lecionava na própria casa. Tudo era realmente difícil apesar da boa vontade do povo e daqueles que se propunham a melhorar as condições de vida local. No início dos anos 80 Abelardo Costa Lima Filho, então prefeito de Aracati, decidiu construir uma pequena sala de aula. Apesar disso, havia poucas vagas e falta de oportunidade, somada as precárias condições faziam de todos uma comunidade de analfabetos. Outros professores foram citados pelo empenho com que desenvolviam a fascinante “arte das letras”, entre eles estão: Dona Brígida, Dona Fátima de Luis Rodolfo e Margareth, da comunidade de Manibu. Como colaboradoras nesse processo constam: Marleide, que na época tinha apenas 13 anos e Dona Deni. Uma outra ação posterior foi o “Projeto Mobral”, cujo intento, pelo menos em teoria, era a alfabetização dos pescadores.
A falta consistente de ações na área de saúde resultou na morte de muitas pessoas, sobretudo de crianças e mulheres gestantes. Os senhores Zé de Gracinha e Antônio Bocoio carregavam inúmeras crianças ou anjinhos, como eram conhecidas após falecerem. As atividades nesse campo estavam restritas as parteiras que desempenharam um importante papel, entre as quais são citadas: Dona Luzia, Mãe Angeline, Catu e Neném Castuário; e aos curandeiros e rezadeiras como: Tereza Viana, João Timóteo, Maria Viúva, Adelaide de Tubiba, Francisca Messias e Dona Vilaní, além do Sr. Aldo Barreto, responsável pela manipulação de remédios caseiros.
Do ponto de religiosos a população se ressentia da ausência de padres, respeitados guias espirituais. Lembram que às vezes o Pe. José Sales, que vinha do Aracati, visitava a comunidade, porém de forma inconsistente. Fazem grande alusão ao Pe. Diomedes de Carvalho em fins da década de 70, que passou a desenvolver um trabalho planejado de formação de grupos de jovens em várias povoações da região, tais como Redonda, Melancias e inclusive em Barreiras.
A partir da década de 1980 e, sobretudo após a emancipação política do Distrito de Icapuí muita coisa mudou. Avanços nas condições de moradia com a construção de casas de tijolos, bem mais cômodas, e a distribuição de kits sanitários foram conquistas que tiveram um significado importante na valoração das pessoas enquanto cidadãs, dignas de uma vida digna. Neste sentido muito contribuiu a fundação da Associação de Moradores local, tendo como presidente o Sr. Ivan Silvério.
Outros eventos sociais mobilizaram a comunidade de forma a proporcionar um espaço de integração mais dinâmico. É assim que passa a ser vista a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes (Padroeira local), em 15 de agosto. Uma comemoração que, de início acontecia no salão do “Fransquinho”, com leilão e quermesses.
1990 – Outras melhorias vão se consolidando, tais como a via de acesso a comunidade asfaltada, a conclusão da Escola Municipal Joana Marques e serviços públicos como telefone e água encanada.
2002 – Desordenada extração de capim ou algas de forma predatória, processo em que era arrancado o “bugalhau”, elemento importante e indispensável para a reprodução do capim retirado, prejudicando assim o banco de algas marinhas.
Registra-se um grande avanço da maré, totalizando 15 metros, devastando estradas e ameaçando moradias.
Início do cultivo de algas marinhas pelo Ministério da Agricultura e pelo Labomar que realizaram uma série de cursos na tentativa de conscientizar e capacitar as pessoas, resultando na formação de um grupo de 15 a 20 mulheres. A experiência, no entanto, durou pouco, praticamente todo material disponibilizado para desenvolvimento da atividade foi furtado.
Participaram desse processo de resgate da memória coletiva local:
Raimundo Nonato de Souza; Abismar, José de Petosa, Fransquinho, Expedito, Nonato Valente, José de Neném, Jonas, Laudelino, Dona Zumira, Belina e Mazé de Tuita. Em oficina realizada em 23 de setembro de 2005, sob a moderação de Josy Dantas e Dora Farias.
Referência Bibliográfica
MARÍ (Tese de Mestrado)
BEZERRA, Cláudio Alberto Barbosa. Impacto social da pesca da lagosta com compressor em Redonda – Icapuí – CE. (Monografia de Graduação em Engenharia de Pesca) Centro de Ciências Agrárias. Departamento de Engenharia de Pesca. UFC – Fortaleza-CE, 1992.
OLIVEIRA, Ocivá José de. Sociedade e economia na atividade lagosteira de Icapuí – CE. (Monografia de Especialização em Desenvolvimento Regional) Pró-Reitoria de Pesca e Pós-Graduação. UERN. Mossoró – RN, 1994.
_______________________. A atividade lagosteira no município de Icapuí-CE: a situação de vida do pescador, suas contradições e perspectivas. Revista Expressão, Ano XXX, Nº 1 e 2. UERN. 1999.
ANDRADE, Luiz Odorico Monteiro de. & GOYA, Neusa. Sistemas locais de saúde em município de pequeno porte – a resposta de Icapuí. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 1992.
SILVA, José Airton Félix Cirilo da. Icapuí uma história de luta. 1ª ed. Gráfica Encaixe. Fortaleza – CE, 1998.
HAGUETTE, André. VIDAL, Eloísa M. (org.). Os caminhos da municipalização no Ceará: uma avaliação. UFC, Casa de José de Alencar, Programa Editorial. Fortaleza, CE. 1998.
STUDART FILHO, Carlos. O povoamento do Ceará. Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza-CE. Tomo 83. 1969.
SILVA, Edson Vicente da. Dinâmica de Paisagem: estudo integrado de ecossistemas litorâneos em Huevla (Espanha) e Ceará (Brasil). Dissertação de Doutorado apresentada a UESP, Rio Claro, SP. 1993.
BRANDÃO. Mateus Nogueira. Parecer do juiz árbitro na questão de limites entre o Ceará e o Rio Grande do Norte. Ed. Typ. Escolar, Rio de Janeiro, RJ. 1902.
FREITAS FILHO, Manuel de. A aldeia do areal: história e memória de Ibicuitaba, Icapuí, Ceará. Fortaleza, CE. Ed. BN. 2003.
LEAL, Hélio Ideburque Carneiro. Igreja de Nossa Senhora do Rosário: a matriz de Aracati. Ed. Minerva. Fortaleza-CE. 1998.
|