BARREIRAS DA SEREIA
Origem do nome:
A comunidade não fez nenhuma referência direta à sua origem toponímica a esta que parece ser uma designação geográfica da formação de “barreiras”, elevações levemente inclinadas lançadas por entre cômoros encimados de vegetação escassa e rasteira que compõe o quadro paisagístico local. (Cf. SILVA. 1993. STUDART FILHO. 1969: 45-61 & FREITAS FILHO. 2003: 96)
Linha da Vida
Para Dona Maria Vilaní Rodrigues, de 71 anos, natural da vila de Barreiras, a época mais difícil foi entre os anos de 1930 a 1942, períodos de longas secas. As famílias se valiam da pesca escassa e da agricultura raquítica baseada em culturas como mandioca, melancia e feijão. Lembra ainda que tempos como aqueles até bagre encalhava na praia.
A estiagem de 1932 fez com famílias como a do Sr. Jaime, ainda criança, e natural do município de Itaiçaba, no interior do Estado do Ceará, migrasse para o litoral de Icapuí, situando-se em Barreiras. Mas também são de suas reminiscências bons períodos de inverno cujas torrentes formavam grandes lagoas, algumas das quais desembocavam no mar, bastante próximo as residências. Nesses momentos de fartura, as atividades eram intensas, inclusive para as crianças, que muitas vezes iam dormir tarde debulhando feijão. Com vestimentas de saco de açúcar varavam a noite cuidando da alimentação para o dia seguinte.
As festas religiosas tradicionais eram as de Nossa Senhora de Santana, as festividades Juninas e o Natal. A primeira destas comemorações teve início com a transferência da imagem de N. S. de Santana de Picos para Barreiras. O fato se deu quando da morte de uma velha senhora, guardiã da imagem.
Muitos fazem referência a inconfundível personalidade do Pe. Marcondes Cavalcante e suas missas em Latim, de costas para o povo. Sem prédio de Igreja na comunidade a Santa Celebração da Eucaristia foi liberada para ser realizada em casas particulares (Leia-se FREITAS FILHO: 2003, cap. IV, p. 223). O sacerdote vinha a cavalo e, não raro, acompanhado de muitos fieis que, a pé, contavam e rezavam, como uma grande procissão. Na época, apenas o catolicismo estava como religião oficial. Posteriormente surgiu a semente do Protestantismo, que em Barreiras teve como um dos principais propagadores o Sr. Antônio Severiano.
De tudo quanto se poderia ver em idos como aqueles o que mais impressionou gente como o Sr. José de Zezinho e Dona Adelaide Rebouças Braga, foi a quantidade de crianças que morriam a míngua pela falta de assistência médica.
“Era feito fila... quase toda tarde, na hora do café, eu corria para a janela e via pessoas carregando um anjinho. Tudo isso mudou quando Icapuí virou cidade” – nos diz seu Zé.
Na melhor das ocasiões, o jeito era valar-se do pick-up de Antônio de Cosmo para quem podia procurar tratamento fora ou apostar na sorte sofrendo nas cidades vizinhas atrás da cura para a enfermidade. É como nos faz melhor entender Dona Adelaide:
“Quando alguém ficava doente se usava chá de boldo, angélica, caatingueira. Quem tinha algum tostão ia pro Aracati, quem não tinha morria aqui mesmo. As muié murria quase tudo de parto... vala me Deus! Isso era uma coisa tirana, só Jesus pa ter piedade. Na época as parteira era Angélica, que morreu com 105 ano e Chiquinha. Tinha também os rezador que era cumade Vilaní e Tubiba que curava engasgo”.
Os tempos de mocidade são lembrados com graça e descontração além de certo saudosismo, reflexo de um povo de garra e coragem que apesar de tantos percalços conseguia tirar do sofrimento à vontade de ser feliz. Foi assim para Dona Vilaní, que além das horas a fio a que se dedicava na arte de tecer labirinto, revive com emoção as brincadeiras nos morros alvos que circundavam a região, cheia de velame e hortênsia, ao som do inconfundível toque de viola do seu Zé de Zezinho.
O Sr. José conta com veemência que a iluminação era feita através da cera de abelha, pois o gás, como outros, era um produto muito difícil. Aliás, a falta de fluxo comercial levava as pessoas do povoado a se reabastecerem na Barrinha. Somente algum tempo depois surgiu uma bodega que passou a vender gás em retalho, além de sabão e farinha. A atividade dos tropeiros ou mascates na região, oriundos de cidades próximas, favorecia, vez em quando, a troca de alguns gêneros tais como cocos e peixes secos por rapadura e farinhada.
O empenho primeiro pela educação na comunidade coube a famosa Colônia de Pescadores que pagava uma professora de Jaguaruana, a Sra. Almerinda Barreto e posteriormente Dona Joana Marques, que com as limitadas condições existentes procuravam instruir o povo. Para Dona Vilaní, a educação só começou a melhor ainda de forma tímida com vitória de José Airton Cirilo, filho de Mutamba, para Vereador na Câmara Municipal de Aracati em 1981. “Na minha casa – diz ela – tinha uma escolinha, pagavam a Maninho que era o professor. Lutei muito por essa escola, ela foi criada (oficialmente), na primeira administração de Zé Airton já como prefeito de Icapuí. A gente ia fazer a escola em regime comunitário. O canto foi doado, começamos a fazer em mutirão e então Zé Airton mandou construir”. – Antes disso, reafirma a sábia senhora - Abelardo, prefeito de Aracati, colocou um Vereador casado com a filha de Zé Simão para construir uma escola somente pra ganhar a eleição.”
Até a década de 50 existiam poucas casas em Barreiras. Algumas delas propriedades das famílias Rufino, Rodrigues, Severo, Simão, Cazuza e Felismino, base da genealogia local da qual descende toda uma gama de ramificações familiares. Também é do famoso decênio a lembrança de que passaram a encalhar na beira da praia grandes fardos de borracha, proveniente de supostos naufrágios, bem como muitos tonéis conduzindo “banha de porco”, produto aproveitado na alimentação de vários moradores, da qual faziam farofa.
Foi em anos como aqueles que a lagosta surge como importante fator econômico, redefinindo a vida de muitos pescadores. No início o crustáceo servia apenas como base da alimentação local, capturado por anzóis que chegavam fisgar de 100 a 150 lagostas em poucos minutos. Isso até a chegada do Norte Americano Morgan que introduziu o lucrativo comércio cujas proporções de valorização mal eram percebidos pelos pescadores da comunidade.
O ano de 1986 marcou a feliz chegada da energia elétrica. Na mesma época a comunidade procurar se organizar melhor e cria a Associação de Moradores, da qual Ivan Silvério foi o primeiro presidente.
A comunidade sempre contou com representantes políticos junto a Câmara Municipal. O primeiro deles foi Deca, Vereador por alguns anos. Posteriormente o Irmão Edílson (atual Prefeito), que apesar de não ser barreirense, sempre prestou serviços à comunidade.
1990 – Chegada da água encanada;
1993 – Fundação da Associação de Moradores de Barreiras, em 21 de Outubro;
1994 – Surgimento da mini-fábrica de beneficiamento do coco, tendo como responsáveis os senhores Raimundo José e Ivan Silvério;
1999/2000 – É criado o grupo “Sementes da Vida” a partir do Projeto “Corpo Meu Minha Morada”. (obs: trazer mais referências a esse projeto);
2003 – Chega à comunidade o “Mulheres em Movimento”;
2004 – Inicio das festividades relacionadas ao Sagrado Coração de Jesus;
Participaram desse processo de resgate da memória coletiva local:
Dona Belina; Dona Silvia, Seu Abismar, Dona Luzia e Dona Romana, que se constituem nas mais velhas pessoas da comunidade. Além de José Jaime Barbosa; José de Zezinho; Adelaide Rebouças Braga e Maria Vilaní Rodrigues. Em oficina realizada aos 23 de setembro de 2005, sob a moderação de Dora Farias e Arimatéia Silva.
Referência Bibliográfica
MARÍ (Tese de Mestrado)
BEZERRA, Cláudio Alberto Barbosa. Impacto social da pesca da lagosta com compressor em Redonda – Icapuí – CE. (Monografia de Graduação em Engenharia de Pesca) Centro de Ciências Agrárias. Departamento de Engenharia de Pesca. UFC – Fortaleza-CE, 1992.
OLIVEIRA, Ocivá José de. Sociedade e economia na atividade lagosteira de Icapuí – CE. (Monografia de Especialização em Desenvolvimento Regional) Pró-Reitoria de Pesca e Pós-Graduação. UERN. Mossoró – RN, 1994.
_______________________. A atividade lagosteira no município de Icapuí-CE: a situação de vida do pescador, suas contradições e perspectivas. Revista Expressão, Ano XXX, Nº 1 e 2. UERN. 1999.
ANDRADE, Luiz Odorico Monteiro de. & GOYA, Neusa. Sistemas locais de saúde em município de pequeno porte – a resposta de Icapuí. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 1992.
SILVA, José Airton Félix Cirilo da. Icapuí uma história de luta. 1ª ed. Gráfica Encaixe. Fortaleza – CE, 1998.
HAGUETTE, André. VIDAL, Eloísa M. (org.). Os caminhos da municipalização no Ceará: uma avaliação. UFC, Casa de José de Alencar, Programa Editorial. Fortaleza, CE. 1998.
STUDART FILHO, Carlos. O povoamento do Ceará. Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza-CE. Tomo 83. 1969.
BRANDÃO. Mateus Nogueira. Parecer do juiz árbitro na questão de limites entre o Ceará e o Rio Grande do Norte. Ed. Typ. Escolar, Rio de Janeiro, RJ. 1902.
SILVA, Edson Vicente da. Dinâmica de Paisagem: estudo integrado de ecossistemas litorâneos em Huevla (Espanha) e Ceará (Brasil). Dissertação de Doutorado apresentada a UESP, Rio Claro, SP. 1993.
FREITAS FILHO, Manuel de. A aldeia do areal: história e memória de Ibicuitaba, Icapuí, Ceará. Fortaleza, CE. Ed. BN. 2003.
LEAL, Hélio Ideburque Carneiro. Igreja de Nossa Senhora do Rosário: a matriz de Aracati. Ed. Minerva. Fortaleza-CE. 1998.
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