Sra. Raimunda Eleuzina de Paula
Comunidade de Requenguela
Meu nome é Raimunda Eleuzina de Paula. 61 anos. Faz mais de 25 anos que eu moro aqui. Certo, antes d´eu vim pra cá eu morava numa ilha aculá, ali perto. Seu Fausto morava aqui, naquela casa velha ai eu fui troquei com ele, ai pronto, daqui num sai mais. Rapaz só tinha essa casinha aqui, do veio Fasuto. Aqui só tinha mato, carrapateira, velame, e... aqui mermo nós pegamo a limpar e aqui nós fiquemo. Depois João Velho fez a barraquinha dele, depois Seu Fausto que a casa dele, ai pronto, ai eles tão tomando de conta. Passava o pessoal aqui, nós tudo com sede aqui. Nós fazia cacimba aqui no chão. Uma vez logo quando Dedé Teixeira se candidatô, ele chegou aqui pediu água. Hum! Eu disse: Dedé né boa não é solaba! Ele falou: “Mas eu quero q´eu tô com sede!” Eu fui buscar, ai ele bebeu disse: “ Ah! É tirana mermo essa água! Se eu ganhar eu boto água aqui pra vocês”. E dito e feito, ele botou. Sofremo munto carregando na pipa, pedindo água mais, graças a Deus já tem tudo franco aqui.
Quando se queria comprar alguma coisa ia pu oto lado, ia a pé! Ia a pé lá pa Juarez, ali pa Rael, tinha o fí de Rita, por açula, comprava ali. Nós sofremo munto aqui, agora não, agora tá tudo bom... tá tudo diferente, graças a Deus! Quando nós viemo morar aqui meu marido trabalha ali naquele motor, sabe? ai depois pegou a tirar capim, tinha munto! Ele agora deixou a vida de capim tá trabalhando ali numa casa e dar pa gente ir vivendo. Meus fi tudo cresceram, tudo casado, sempre me ajudo...
Estudei! Estudei! Huum.. Eu fazia munta ruindade lá na escola, rarara! Quem sabia mais de alguma coisa era eu. Tinha uma menina que disse assim: “Leuzinha, me ensina-me a lição” – no tempo de Maria Amalha - me ensina-me a lição q´eu dôte uma merenda” – um pedaço de melancia, que ela tinha levado uma bica. Ai, tá certo. Ensinei a ela tudim. Quando foi na hora do recreio ela pegou a comer melancia. E eu só espiando! No último pedaço eu peguei um punhado de areia e rebolei na melancia. Ai ela correu foi dizer a Dona Maria, Maria Amalha, q´eu tinha rebolado areia na melancia dela, eu fui disse, porque ela prometeu e num me deu! Maria Amalha me pegou-me, botou no castigo, de joelho, era de joelho. Doze hora era pá nós sair, sabe? Ai ele foi disse que eu num saia mais.
Precisou mamãe vim pa me tirar do castigo. Eu sei q´eu sufri munto nas escola, porque o povo me prometia a mim num me dava ai eu... né? Porque quem promete deve, né? Fiz até o terceiro ano. As vezes eu ia pa escola, a professora, a professora fazia meu dever ai eu arrancava a folha, pa num fazer! Chegava em casa dizia, mamãe ela num passou dever pra mim não. Mentira! Hoje em dia tô arrependia porque num aprendi... O que eu tinha vontade de aprender num aprendi, né? Hoje é tarde. Sempre eu estudo aqui, a menina vem me ensinar, mas eu num aprendo não. Ai Jesus!
Desde de sete ano q´eu faço labirinto. Aprendi com minha mãe. Certo, a minha mãe assim, era minha avô, sabe? mas a gente considerava ela como mãe, foi quem criou nós. Ela foi quem ensinou a gente. O povo encomendava a ela ai nós fazia...
A minha mãe era filha de Lula, Evanir de Lula. E meu pai é da famia de... da famia de Leonia, do povo de Tié. Meu pai parece que era tio do pai dele ou era irmão... Meu pai tinha mercearia em Manaus, sabe? ele vivia lá. Quando ele foi simbora eu fiquei pequena, bem pequenininha, uns três anos por ai, eu nem me lembro dele, né? Ele era separado da minha mãe. Ai ele morreu e eu num vi mais ele! Eu tinha munta vontade de conhecer ele, mas... A minha mãe fazia labirinto também. Neste tempo o povo que fazia labirinto só fazia labirinto. Minha mãe morreu com 44 ano. Ela tava na casa dela ai quando amanheceu o dia ai vieram chamara a gente sabe? Eu tava até de resguardo, nem lá eu fui. Eu tava com oito dia de resguardo do meu menino... Eu num sei de que foi, foi de repente a morte dela. Aqui tenho dois irmão, mas no Pará eu tenho nove ou é dez! Munto irmão. Esses nasceram pa banda de lá. Os que nasce aqui foi esses dois que mora aqui, Mirian e Eliezo. E desses otos meus irmãos também só conheci um que veio aqui, os oto nunca conheci, nunca vi.
Nesse tempo divertimento aqui era... pastoril... essas coisa assim, Dama. Nós vivia nessas coisa. Eu tenho saudade, munta saudade! Numa festa que houve de Nossa Senhora da Soledade, eu fui até rainha. Faz muntos anos, eu tinha, parece que, quinze ano ou era dezesseis, quando eu fui rainha. Foi a festa munto animada em Icapuí. Eu me lembro é munto!
Aqui era tudo escuro! Era só na lamparina, era mais claro quando era lua. Dento de casa era lamparina... Os ganho era mais difícil, mais pouco. Eu sei que depois que nós viemo pra cá, eu e meu marido trabalhava no capim, os menino tudo pequeno, assim de nove pa dez ano. Depois terminou o capim, passou um tempo sem tirar o capim (algas marinhas) ai ele pegou foi pa salina, trabaiou no galpão, um bucado de tempo. Eu sei que graças a Deus até hoje nós tamo vivendo. Meus fi se casaro quasse tudo, tudo perto... Nós sofremo munto também!! Hoje a gente vive nu céu.
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