Sr. João Pereira dos Santos
Comunidade de Requenguela

“O meu nome é João Pereira dos Santos, conhecido na região toda por “João Velho”, né? A praia que a gente mora, o nome dela é Requenguela.

Eu cheguei aqui em 1982, aqui não habitava ninguém. Como não habitava ninguém, eu me agradei da praia, era uma praia boa de se viver, construí uma barracazinha de tábua, né? Coberta de palha e... fui levando a vida.

Muita gente me chamava de doido, de maluco, porque que eu estava fazendo uma barraca no canto que hoje estou, e... rapaz eu vou tentar aqui um ano, dois, até quando Deus queira que eu fique aqui, tô fazendo aqui uma tentativa pra ver se dar certo. Então eu hoje estou aqui e graça a Deus num tem mais só eu, tem vários moradores, umas cinqüenta casas, tudo com família morando, né? Eu me orgulho nessa parte por ter sido um dos primeiro a chegar aqui E... vivo feliz, meus filhos, criei aqui, hoje já tenho um formado, graças a Deus,  e batalhando com a minha esposa pra chegar onde meu filho chegou... nem todo pobre tem a possibilidade de formar um filho como eu formei. Meus filhos são muito bons  pra mim, não me dão trabalho, e hoje eu ainda continuo trabalho pra eles. Tenho 55 anos, eu não tenho mais prazer assim... de trabalhar pra luxar, pra farrear, eu num posso! Trabalho investindo pra eles, né? Hoje nos tamo tudo feliz, eu adoro eles, eles também me adoram muito mais e graças a Deus a gente vai levando a vida como Deus quer e tamo satisfeito, graças a Deus”. 

Bom aquilo que eu tudo falei, eu considero hoje a vida da gente, e... está mais ô meno, mas também passei por muita dificuldade quando eu tava... quando eu vivia com meu pai, com a minha mãe e os meus irmãos. A vida era muito difícil, a gente buscando lenha na mata com uma distância de quatro, cinco quilômetros trazendo lenha no ombro, ou num jeguizinho pequeno, pa poder cozinhar. A comida muito difícil, procurava também muito distante porque a gente não tinha dinheiro pa comprar uma carnezinha ou o peixe na praia, onde a gente morava eram também distante da praia, era mais ou menos, aproximadamente, a nove quilômetro. Era longe e a gente não ia. Ia pescar em lagoa, pescava de anzol, pegava aqueles pexim que chama cará, jacundá, traíra, qu´era pa poder comer. Dia pegava, dia não pegava. E no dia que a gente tinha sorte e pegava bastante, a gente já trocava, ia numa casa de farinha onde fazia farinhada, e trocava o peixe por fumaça, por farinha, e até um poquim de goma q ´era pa poder fazer o beiju. E aquele beiju era cozido feito pirão pá comer com cará assado, porque óleo, também, num tinha como comprar, ou assado ou cozido. Bom, ai essa dificuldade grande que a gente tinha de fazer comida porque lenha tinha que ir buscar longe, e além disso quando chegava em casa se tivesse a comida tudo bem, ia comer a comida, quando num tivesse ia procurar o tipo da comida pa comer.

Chegava uma época, lá em casa eram dez filhos, tudo vivo... a minha mãe teve dezessete, mas Deus levou sete, ficaram dez vivo, e esses dez tudo batalhando, ajudando uns e oto.  E meu pai negociava com meia dúzia de jegue, que se chama jumento, vendendo batata, rapadura, sal, pa poder ganhar alguma coisa pa gente sobreviver. Minha mãe na época que... as vezes ficava de gestante, também munto difícil, porque não tinha médico, era só parteira, né? chamavo “caxebeira”, e... e isso a Deus querer ainda teve dez vivo, esses dez hoje hoje contina, graças a Deus, dono de si, nós já ajudamos o nosso pai e graças a Deus, hoje a gente já tá numa vida melhor, mas a gente ainda tá trabalhando pa melhorar mais. Já hoje ele (pai) já tem filho, tem neto, e tá aproximadamente a chegar bisneto. Os sete... na época que tavo grandezinho ai aparecia doença, ai num tinha como destrinchar o que... alguém... as curandeira curava, né? pensando que ara doença de cura, não era! E... num tinha ninguém pa descobrir o que era, a gente num tinha condição de, ir o que, a Fortaleza, era só onde tinha médico né? e ali, a gente fazia os tratamento mas, o tratamento que a gente dava num era o, o legal. Então morria! Num tinha transporte, o dinheiro também num tinha. Num tinha remédio não. Quando, é... quando se comprava remédio ia a uma bodega, chega lá a pessoa que tinha era uma melhoral pra a febre, na época era só melhoral e outros comprimidos que a gente, que hoje num seio mais. Mas se tivesse... num tinha transporte pa ir, de jumento num dava pa ir, que era longe demais, jumento a transporte pra se vaiajar uma légua, duas légua, né? Mas não duzentos quilometo, num tinha condição. Se fosse uma doença grave, quando chegasse já tinha morrido e enterrado... se o jumento não morresse na viagem! Era longe, só estrada de areia. Hoje aonde eu morava tem estrada, mas na época num tinha. A coisa era muito difícil, morria a míngua por causa dessas coisas.

Lá no alto mar nunca fui não, só aqui em terra mesmo. Fui fazer um teste lá mas eu achei que era muito dispendioso e... era um trabalho pesado e num dava pra mim não. Eu pescava de tarrafa aqui em terra, de rede, jereré, de furquia, cuca, era as minhas armadilha de pescar. Hoje ainda pesco é mei difícil mas pesco.

Só tenho pai, minha mãe morreu eu tinha quinze anos de idade. Eu já tenho cinqüenta e cinco, no caso tem quarenta  cinco dela falecida, né? E como faz falta!! Muitos dias eu me sento aqui e em recordo do começo, como a gente vivia tudo junto, na dificuldade, tão precária e... pra hoje a gente vive numa vida melhor... Até que eu conto, os meus filho rir e acha que to brincando com eles. E, eu num conto pra eles nem é... o pior, já conto uma partizinha de quando a gente melhorou mais um pouquinho, e eles ainda acha que num era. Se eu conto do começo, do início, de que eu comecei a me entender assim, o que era o bom e o que era o ruim, ai é que eles ficava rindo. Eles rir por inocência, né? Acha que a gente tá dizendo aquilo por divertimento, é, é... pra eles escutar. Mas quando eles vê eu conversando, com uma patota assim, de idosos, idosas, “é meu fí, era assim!!”, ai eles fico assim, meu indeciso, né? mas não é acreditado.

Se alguém concordou e disse: “é meu fi, era assim”, é pa ver se ele acredita. Mas os velho sabe as dificuldade que a gente passava. Hoje eles num passa! Porque hoje quando você tem um filho, o filho, a gente acha que é o tudo da vida, então num, num açoita ele, só trabalha pa dar carinho a ele, dar o luxo que ele quer, e também dependo da nossa condição, a gente compra um quilo de carne, vai comer, “papai eu num quero carne não, eu quero é...!”, quer uma salsicha, uma lingüiça, né? e a gente vai porque tem amor por ele né? E também a condição já dar pa comprar. E na época ou comia aquilo que tinha ou então eles obrigava a gente a comer porque não tinha outro. Ou então ia comer farinha seca com rapadura ou com açúcar. Ou com cafezinho ou uma garrafa de limão, o que aparecia! Hoje não. Quando tem a sorte dele (filho) colaborar com o pai, com a mãe, com os irmão, que foi boas pessoa pra eles, tudo bem! E quando tem dele que se torna marginal? Tanto amor que você teve por eles, que sofreu tanto por eles... acarinhando, dando o luxo que ele queria e que você podia dar, e... e chega o tempo que eles num lhe agradece? Ai vai fumar maconha, beber cachaça, chega em casa querendo brigar com o pai, com a mãe, com os irmão... Tudo isso é uma coisa muito ruim!

Eu num penso em sair daqui pa oto canto porque é o seguinte: é aquela velha história, planta que munto muda, mucha, né? Então eu sair daqui que eu acho tão bom, sair pum lugar... aqui alguém dizia assim: “Home você num quer ir pa São Paulo não? Tu num tem vontade de ir pa Fortaleza, não?” Eu digo, quer que eu vou ver em Fortaleza e em São Paulo?! Quando eles chegam aqui, ficam encantado... diz eles que é um paraíso! Então em eu escutar isso que eles diz porque que eu vou lá pa São Paulo? Criei minha família aqui, hoje sou feliz, graças a Deus e então tenho vontade de sair pa canto nenhum não. E... tenho vontade assim, de terminar, de vender o ponto, meus filho num querem trabalhar aqui, eles num se dão com isso, né? Aqui foi onde eu criei eles!Então eu acho que naquela luta qu´eles me viram e eles estão vendo que num é bom, num quere seguir né? Quere seguir ota coisa melhor e por isso é que eu trabalho, pra ele se virar e arrumar o melhor. E eu, ganhando pra mim e pra eles!

 

 

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