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Sr. Jaime Raimundo do Silva
Comunidade da Barrinha
“O nome do meu pai era Raimundo e da minha mãe era Maria.”
“Aqui tinha poucas casa! Era tudo no escuro, as casa era de taipa. Se plantava só um feijãozinho, também só pra comer, num tinha quem comprasse peixe... num tinha dinheiro. É como eu disse: aqui era poucas casa, só de pescaria, só se cumia um peixinho, comia até o peixe escotero, porque não tinha onde comprasse farinha pra fazer pirão. Munto dormia no escuro que não tinha gás. Fazia um morrão de cera, enrolava no pano e tocava fogo porque não tinha gás. Plantava uns caroçinho de feijão o gurguio era quem comia, num tinha quem comprasse.”
“As casa era só mesmo de taipazinha, com paia de coqueiro. A vida era difícil! Eu criei meus fio morrendo de fome, trabaiando no cabo da enchada pa ganhar dez tostões o dia. Eu nem em casa num vinha meio dia. Tive seis fio. Morreu só um: o derradeiro. Tô com sessenta ano de casado. Agora no dia dezessete eu completo oitenta e dois e no dia vinte e dois, sessenta de casado.”
“A lenha a gente ia buscar lá na serra, carregava o fexim na cabeça, andava uns dois quilômetro.
Num existia posto de saúde não e morria munta muier de parto. Se quisesse um remédio ia pra Areia Branca, a pé... daqui umas pouca de légua, dá! Aqui num existia dotor não. Medicamento era só chá de mato mesmo. Quando tinha um criança doente levava pá curar, era assim. Eu quase que morro de fome. Hoje todo mundo é rico. O mais pobe só quer comer do bom e do mió, né não? Daqui só se saia de péis ou num jumentozinho... ah, isso era uma moto!”
“Por aqui tinha munta festa! Tinha festa, a gente ia... Tinha festa de São João, São Pedro, tudo a gente ia. Tinha os botiquim só pra divertir. Num havia briga, num havia nada. Era munto animado, era mais do que hoje. Era munto bom... Tinha missa, assistia a missa!! Tinha pastoril com dona Besinha e a minha muiê dançava pastoril!”
“A lagosta mudou munta coisa, mudou demais! O lagostim foi uma mina pra todo canto, pra capuí, pra Barrinha, pra todo canto. Começou Chico de Jovina pescando Jereré. Eu cansei de ver aqui em cima dos bancos era vermelho da cor de fogo, só de lagostinho! Pescavam de anzol, comprava uma lagosta daquela por quinhentos réis. Dava pra seis oito pessoa comer! Um rabo daquele hoje dava dois quilo, só um rabo.”
“O capim aqui tá dando uma renda medonha, o capim aqui tá dando munto bom, é pra menino, é pra muiê, pra homi, pra todo vivente no mundo tá dando dinheiro o capim aqui. É uma renda mior do que a lagosta. Hoje num tiro mais não, mas já tirei munto. A muiê tirava mais eu. A gente ia numa catraia, ela ficava em cima da catraia, eu começava a tirar e ela fica em cima só pra catar o capim.”
“1942 foi seco! Nosso senhor dava o jeito pá gente viver de tudo no mundo, mas aperriado se vivia munto!”
“Eu estudei, mas num aprendi nada não. Por pouco tempo! Aqui mermo, tinha uma muiêr, dona Alzira. Era só na casa de ABC. Tinha palmatória! Dessa eu num esqueço não... Levei uns quatro bôlo, viu? Nesse tempo o caba apanhava de palmatória. Se errasse comia bôlo.”
“O mar era mais manso... nesse tempo o mar era longe daqui da costa. A costa era munto longe daqui... agora o mar tá acabando com tudo, em toda praia!”
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