|
D. Francisca Ferreira da Silva – Marisqueira – 94 anos
Comunidade da Barrinha
“Francisca Ferreira de Lima. Minha idade: noventa e quatro anos. Natural de Jaguaruana. Moro em Icapuí faz muitos anos. Tive vinte filho, criei quinze... nove home e seis muié. A minha mais moça morreu já fez quatro anos, no dia quinze do mês de agosto a minha mais nova morreu, em Fortaleza. Tinha um negóciozinho mais depois num deu certo... A família toda casada, toda espaiada...”
Vim pra Icapuí porque meu fí queria vim simbora pra cá, ele já conhecia isso aqui, vinha pescar por aqui...
Meu pai morreu com cento e sete ano, oito mês e quatorze dia, passou quinze ano cego... Desde que chegamo aqui que moramo nessa casinha. Ela era de palha né? Depois, com uns tempo foi que construimo melhor. Tinha pouco morador aqui. Nessa estrada, aculá das quatro boca pra cá, na Barrinha, no local mesmo da Barrinha também tinha pouca casa. Hoje já tá munto povoado, com munta moradia.”
“Tá cum uns três anos que se acabousse as algas marinhas né? Ai num fui mais pra praia... e cum problema nas perna, quaje cega... num fui mais tirar algas. Agora voltou a aparecer algas marinha e tenho vontade de ir tirar. Pra tirar alga agente saia de manhazinha, as vezes da meia pa tarde, né? depende da maré, é da maré! Na hora que a maré secava, começava a secar, a gente ia. Era muita gente tirando, muita gente e era aquele conveceiro que num tinha fim! Valia a pena, era barato mais valia a pena. Era bom tirar algas marinha.”
Antes “nós morava num lugar chamado Carnaubal, em Jaguaruana. Em 1927... nós viemos simbora pras baixa. Quando nós chegemo nas baixa nós tirava pêlo de ortência, tirei muito, as penca... Secava no cisqueiro e vinha vender no São Chico. Tudo era difícil! Meu marido ficou aleijado e trabalhava na roça de quatro pé. Ele ia de manhã, tomava café, trabalhava até umas horas... Antes ele tomava conta lá de uma fazenda, trabalhava no pesado... Tinha uma vaca de leite.”
“Eu tenho saudade de quando caminhava pra Jaguaruana... Nós saia de noite, com uma lamparina, com uma carga e ia pra festa de Nossa Senhora Santana, Nossa Senhora das Graça, pra noite de ano... Agente viajaja de noite, de pés. Desde quando eu casei que vinha lá de onde nós morava, pras praia, eu mais meu marido, com as carga de madeira... agente viajava pra cá. Eu num conto os dias da minha vida!”
“Fumo! Fumo cachimbo. Fumo de coité de cuspir! De primeiro a gente comprava fumo de rolo, né? Ai depois, com muito tempo começou a aparecer esse fumo de pacote, ai a gente deixou de comprar fumo de rolo. O dinheiro era de vintém, de derreis... eu acho, que se eu num botei no mato, ainda tenho umas moeda dessa. A gente comprava dois vintém, um derreis, uma bataca de fumo ou qualquer objeto que a gente precisasse. O velho ‘Coru’ chegava lá em casa e ensinava minha irmã fumar... eu já fumava quando ele ensinou ela fumar. Daí gostei e num deixei mais de fumar.”
“Aprendi a carta do ABC, quando ainda morava no Carnaubal, ai vimo cimbora pras Baixa, num tinha escola, difícil, de primeiro era tudo difícil. Tenho na memória, que eu pego logo hoje e mesmo com a vista ruim ainda leio a carta do ABC. Sou alfabetizada.”
“Faz quarenta e dois ano que meu marido morreu. Ele saia de Lagoa Seca (Jaguaruana) pra Redonda pra comprar peixe, fazia olho de paia, casa de paia. Tinha um burrinho, dois, um jumentinho... Ele trazia as cargas madeira pra vender na Redonda, junto com o finado Chico Leonel. Trazia madeira pra curral, fava pra curral de pesca... a madeirama (aroeira, amburana) dessas casas de taipa, pra fazer essas portas... Comprava rapadura lá na feira pra vender aqui, comprava peixe aqui e levava pra lá, algodão... isso há sessenta anos atrás. Meu filho deu muita viagem mais ele. Muitas vezes ele chegava de madrugada, em casa e ai era que ia botar peixe no fogo. As vezes o sol ia saindo e a gente tava acabando de comer.
Passei muita dificuldade pra criar a família. Depois que eu fiquei viúva eu ia pros mato tirar carga de lenha, pra cozinhar. O fogão era a lenha. As panela era de barro. Tudo era de barro... Num tinha essa história de panela de pressão não. Eu ainda tenho uma panela veia de barro ali. Era demais, era dificuldade demais! Pra lavar roupa ia pra beira das lagoa, quando a gente morava lá em Jaguaruana era no rio. Meus filho foi tudo parto normal, graças a Deus! Tive tudo em casa. Dum abordo que eu tive, passei quase um mês sem andar dentro de casa, aborto natural. Foi preciso mandar pra Aracati pra vim um remédio pr´eu tomar, pra poder eu melhorar. Era muito difícil as coisas naquele tempo. Se achava um médico perdido no Aracati. E se ele num acertasse o remédio, tinha que fazer remédio do mato, né? As coisa hoje mudou pra melhor! Mas se eu disser que tenho saudade daquele tempo você acredita? Pois de muita coisa ainda me dá saudade. Eu me lembro é muito... das coisas boas, assim quando tô sozinha, num sabe? Moço, meu coração ainda é de jaguaruana... Me recordo tudo ainda... Isso é quando eu tô sozinha comigo mesma, sabe?...”
“De primeiro o mar ela mais longe das casa, mais pra lá. Hoje? A maré acaba com tudo!”
“Minha mãe morreu da malária! Ela amanhecia o dia doente... ela morava na Lagoa Seca. Ainda hoje tenho na mente que minha mãe enterrou-se viva. Porque uma hora da tarde ela faleceu, passou a noite na casa, ai depois butaro numa rede pá levar pro cemitério. Era sete légua de onde nós morava. E, a rede dela era mesmo que tá pegando fogo de quente.
Tinha desses que adoecia e passa o dia sem fala, como morto. Tinha uns comprimido que os guarda era quem trazia, os guarda que vinha consultar o povo era quem trazia. Aquilo é que era tempo difícil!”
Voltar para a página anterior |