AUTORA: ISABELA SANTOS BEZERRA

IDADE: 14 anos

COMUNIDADE: SERRA DE MUTAMBA

Meu nome é Isabela Santos Bezerra, moro na comunidade de Serra de Mutamba, desde que nasci, tenho 14 anos, estudo na Escola Raimunda Lacerda, gosto muito de estudar, fazer amigos e procuro aprender coisas novas. Estou participando das atividades do Projeto Memória vida e estou gostando muito. Tenho aprendido muito sobre Icapuí e a historia de como se formaram as nossas comunidades. Para mim foi muito importante saber como as coisas eram antigamente na minha comunidade e em Icapuí. E como as coisas eram difíceis, como as pessoas passavam dificuldades. O que mais me chamou atenção foi às dificuldades que as pessoas passavam para sobreviverem e também me choquei em saber que não existiam médicos e nenhum posto de saúde e que muitas pessoas morriam. Hoje vejo como as coisas são diferentes e como mudaram, hoje temos outra vida, bem melhor. Penso no meu futuro, como vejo as coisas daqui a 10 anos. Quero uma Icapuí melhor, totalmente mudada com um prefeito que cuide e valorize a nossa gente e a pesca volte a ser como era antes.


UM MERGULHO NA NOSSA HISTORIA


Para conhecer melhor um pouco da historia de Icapuí, e somar as demais informações que construiu nas oficinas, Isabela conversou com um Senhor de 87 anos de sua comunidade conhecido como Luiz de meu Chico.


Seu Chico, como era Icapuí e a sua comunidade há 50 anos? Como as pessoas viviam?


"As coisas antigamente em Icapuí eram muito diferentes. O nosso lugar se chamava Caiçara. A nossa comunidade era mais diferente ainda. As estradas eram de areia coberta com buscas de coco, não existia calçamento, só existia mato e morro. Quando uma pessoa adoecia, eram carregadas de cadeiras ou rede, para a casa das rezadeiras, da mesma forma com as mulheres quando iam parir. Nesse tempo não tinha médicos, hospitais, nem posto de saúde. Os doentes eram socorridos com remédios caseiros dados muitas vezes pelas curandeiras.


A pessoa que socorria a comunidade e era o nosso enfermeiro antigamente era senhor Zé de Joel. Tudo era muito difícil naquele tempo para as pessoas viverem. As pessoas viviam da pesca e da Agricultura. Para cozinhar as mulheres tinham que pegar lenha no mato e trazer em suas cabeças para fazer o fogo no fogão à lenha. As comidas eram peixe, farinha com açúcar, pirão e farofa de coco. Quando se arrumavam para sair às pessoas usavam como perfume o óleo de coco e utilizam como calçados tamancos feitos de madeira de imburana. A roupa era feita de sacos que eram comprados nas bodegas e que vinham com açúcar. Não existia luz elétrica, as nossas casas eram iluminadas com lampiões ou lamparinas.


Naquele tempo não tinha televisão, nem rádio. Não existia água encanada em casa de ninguém, só existia chafariz e as pessoas carregavam água na cabeça em latas para todo uso da casa. Muitas vezes, quando faltava água nos chafarizes as pessoas tinham que ir pegar no pé da serra e subiam as ladeiras com as latas cheias na cabeça. As Casas antigamente eram todas de taipas, feitas com barro e cobertas de palhas. Não existiam escolas para as crianças e nem para os adultos. Existia muita gente que não aprendiam a ler por falta de quem ensinassem. Algumas pessoas conseguiam aprender com seus familiares ou tinham condições de estudar fora, chamavam as pessoas para as suas casas, que funcionavam como salas de aula. O meio de transporte era os animais e bem depois as bicicletas.


Quando se realizava um casamento, as noivas eram levadas a cavalo. No centro de Icapuí, antigamente só existia o salão paroquial, a Igreja, a padaria, não tinha muitas ruas e as que tinham eram todas com mato e areia. As pessoas mais importantes da nossa comunidade eram Raimunda Lacerda Damião, que foi a primeira professora da nossa comunidade, depois, Gabriel Epifânio dos Reis, que hoje são homenageadas com nome de escolas. Hoje as coisas estão muito diferentes, hoje é outra cidade."

 
 
 
 
 
 
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