Construção participativa do código de ética ambiental: princípios para uma vida sustentável
"Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo" (Gandhi)
"Saber cuidar: a ética da vida!"
Vivemos atualmente em um mundo entristecido, pois enquanto uma minoria de pessoas vive em elevado grau de consumo, a maioria da população consome apenas uma pequena quantidade de recuros naturais existentes, o que tem gerado uma profunda degradação socioambiental.
Uma comparação nos níveis de vida dos países do mundo concliu que se todos os habitantes do mundo adotassem o modo de vida dos países ricos precisaríamos de mais de 3 planetas.
A qualidade de vida deve ser um bem comum para todos os seres existentes, para todo o meio ambiente. Nossos valores precisam ser revistos e com eles os hábitos que promoverão nosso caminho coletivo rumo a um modelo de desenvolvimento sustentável.
Até aqui a Sociedade, através de seu processo histórico-cultural, vem se desenvolvendo sob uma ética materialista e antropocêntrica, cultivando valores como a competitividade e o individualismo, privilegiando apenas o aspecto econômico da existência humana, ignorando por completo a importância do ambiente natural.
Esta ética expressa-se em um modelo de desnvolvimento fundamentado no progresso material ilimitado e na crença na tecnologia moderna como sendo capaz de minimizar os efeitos danosos causados por este modelo.
Os avanços da tecnologia, têm nos levado justamente no sentido contrário. Ao desenvolver novas tecnologias, maiores quantidades de recursos naturais passaram a ser necessários, aumentando consideravelmente nosso impacto no meio ambiente.
Além disso, aumentou também o desemprego, já que as máquinas passaram a substituir o trabalho humano, sem falar na poluição gerada com a industrialização, contaminando tudo à nossa volta: terra, ar e até mesmo os próprios alimentos e a água, base de nossa sobrevivência. Alguns pesquisadores e pensadores chegam a comparar o progresso da humanidade a um trem-bala, que se desloca cada vez mais rápido na direção de um abismo.
Foi assim que o movimento ambientalista, principalmente a partir da década de 70, tomou força devido ao aumento do número de descontentes e críticos ao modelo de desenvolvimento atual. Desta forma, juntamente com o meio científico e os aumentos sociais, vêm se esboçando propostas alternativas como a do ecodesenvolvimento, do desenvolvimento sustentável, do desenvolvimento à escala humana, do desenvolvimento humano, do desenvolvimento local, dentre outros.
Segundo VALCÁRCEL-RESALT (1999), como elementos mais ou menos comuns destas novas propostas de desnvolvimento podem ser citados o caráter: "local (microregional), integral e integrado, global, endógeno, ecológico, harmônico, coerente, social e de base popular, cooperativo, auto-pendente, participativo, cultural e de rosto Humano". Em todas estas novas visões de desnvolvimento, a satisfação das necessidades humanas e, consequentemente, a Qualidade de Vida, são o objetivo central da sociedade.
Em 1992, a busca por um novo estilo de desnvolvimento toma dimensões mundiais. Representantes dos governos de 170 países, reunidos no Rio de Janeiro, durante a Conferência Intergovernamental sobre o Ambiente Humano - a ECO-92 - assinaram o documento intitulado AGENDA 21, no sentido de adotar e concretizar um novo estilo de desnvolvimento, baseado na proposta mais conhecida do desenvolvimento sustentável.
No entanto, após mais de 10 anos da ECO-92, pouco foi feito pelas nações para mudar o atual quadro de degradação ambiental e injustiça social que temos vivido e que continua crescendo. A maioria dos governos ainda está presa à visão de crescimento econômico, como preocupação central da administração pública.
Evidentemente, esta mudança não é uma tarefa fácil, pois somos herdeiros de um estilo de vida injusto e insustentável. Além disso, a mudança não é de responsabilidade exclusiva da administração pública, é de todos nós: temos que nos organizar e fortalecer valores e práticas cotidianas mais solidárias, democráticas e equilibradas.
Por isso, a base da mudança para uma nova Humanidade, que viva de uma maneira mais simples, feliz e em harmonia com a natureza, está na construção coletiva e na difusão de uma ética que oriente a forma de nos relacionarmos uns com os outros, e com todo abiente à nossa volta, uma Ética Ambiental.
Segundo Leonardo Boff (2000), é justamente no cuidado que vamos encontrar a ética necessária para a sociabilidade humana e, principalmente, descobrir que é na capacidade de amar que reside o "Saber Cuidar" de nosso planeta e de todos(as) os seus habitantes. Uma ética que considere a Humanidade como parte da natureza, em uma relação de interdependência e eco-evolução, promovendo uma visão sagrada de preservação da diversidade da vida e da cultura, levando as comunidades a uma verdadeira e integral melhoria da qualidade de suas vidas.
Precisamos de uma Ética Ambiental, que se fundamente neste "Saber Cuidar" e que incorpore, além de valores humanos necessários para uma vida sustentável, princípios e atitudees que reorientem nossas relação com a própria sociedade e com o meio ambiente, nossa casa comum!
Emerge para a Humanidade uma oportunidade para a transformação, uma (re)evolução que deve começar em cada pessoa, família, escola, comunidade, município; enfim, em todos aqueles e aquelas que tiverem a coragem de optar por pensar e agir diferente, em favor da vida em sua plenitude. Cada indivíduo e cada população (em diversos níveis de organização), de acordo com sua cultura e ambiente, deve participar ativamente deste processo, paassando a ser co-responsável pela sustentabilidade do desenvolvimento humano local e global.
Diversas comunidades, em todas as partes do mundo, vêm construindo de forma participativa um outro modelo de desenvolvimento, utilizando e recriando tecnologias simples (muitas delas, já conhecidas pelas populações tradicionais) baratas e ecológicas, através da bioconstrução, da agrofloresta e do planejamento ambiental, como o banheiro seco, a cisterna, os filtros biológicos, a compostagem, a reciclagem e o emprego das energias alternativas (eólica, solar, biodigetor), dentre tantas outras.
Um grande mestre indiano chamado Sathya Sai nos ensina como incorporar os Valores Humanos em nossas atitudes da vida cotidiana: é a partir da observação de hábitos e atitudes da vida cotidiana, lugar do sentido e das práticas, que concretizaremos a ética ambiental. Neste sentido, é importante que em cada esfera organizativa se promovam debates e se estabeleçam de forma participativa e democrática, segundo sua realidade socioambiental, os princípios e as práticas que deverão reorientar a vida cotidiana local e global à sustentabilidade.
cabe a cada um de nós, cada família, comunidade, município, estado e país, vivenciar a ética ambiental, cuidando da construção de um planeta melhor para todos(as)!!!
Metodologia
A Fundação Brasil Cidadão, em aprceria com a AQUASIS (Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos) e a SEDEMA (Secretaria de Desenvolvimento e Meio Ambiente), com o apoio da Fundação AVINA e da SEMACE, promoveram durante dois meses a construção participativa do Código de Ética Ambiental do Município de Icapuí, contendo princípios e atitudes para uma vida sustentável no município.
A metodologia fundamentou-se na pesquisa-participante, visando estabelecer uma estrutura coletiva, participativa e ativa para a captação de informações.
"A pesquisa participante resgata para a comunidade o poder de pesquisar-se (...) e pode ser então pensada como um instrumento para estimular o "desenvolvimento em escala humana". Nnao apenas pelos resultados que produz, mas pelo processo em si que, por ser educativo, tem valor em si mesmo" (VIEZZER & OVALLES, 1994).
Para a construção do objetivo a que se propõe este trabalho, cada uma das três etapas foi apresentada em uma sequência cíclica de sensibilização - ação - reflexão, que se inter-relacionaram e retroalimentaram, não havendo assim, uma divisão rígida entre as mesmas.
Compreendendo a qualidade de vida enquanto o suprimento sustentável das necessidades básicas materiais e imateriais dos seres humanos, orientamos os princípios e atitudes segundo 8 necessidades principais, segundo seu impacto no ambiente natural e cultural: Relações Humanas, Trabalho, Água, Energia, Habitação, Alimentação, Cidadania e Tratamento de Lixo.
Assim, as três etapas do processo participativo para construção do Código de Ética Ambiental do Município estão descritas a seguir:
1. Curso Preparatório dos Técnicos da SEDEMA e dos Agentes Ambientais: foi realizado um Curso Preparatório, cujo conteúdo envolveu temas como Ecodesenvolvimento, Sustentabilidade, Qualidade de Vida, Ética ambiental, Valores e Atitudes, Dinâmicas de grupo, Metodologia das Oficinas e Elaboração de relatórios, buscando preparar os 3 técnicos da SEDEMA e os 12 Agentes Ambientais do município para realização de Oficinas Regionais.
2. Oficinas regionais: as Oficinas regionais foram realizadas em 8 escolas minicipais, distribuídas de forma a maximizar a participação de todas as comunidades e organizações sociais, objetivando a reflexão popular sobre ecodesenvolvimento e ética ambiental, a construção participativa preliminar dos princípios e atitudes para uma vida sustentável no município de Icapuí e escolha dos representantes para o Seminários Municipal. Apresentamos a seguir o perfil dos 114 participantes, das 25 comunidades, envolvidos nesta etapa:
3. Seminário Municipal "Ética Ambiental: princípios para uma vida sustentável" O Seminário Municipal objetivou reunir os representantes eleitos nas oficinas regionais, organizações governamentais e não-governamentais para a elaboração final do Código de Ética do Município de Icapuí.
O resultado final, sintetiza os Valores, Princípios e Atitudes para uma vida sustentável.