A diversidade biológica é compreendida de acordo com BRASIL (2000) como a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo entre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte, compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies e de ecossistemas.
O presente trabalho, mostra a importância da diversidade biológica para o manguezal da Barra Grande no município de Icapuí, apresentando a inter-relação dos seus componentes com o ambiente e algumas das suas espécies que compõem a fauna e a flora do local, e sua relação com as áreas costeiras, sistema reprodutivo e migratório, bem como o fluxo de espécies que residem ou passam uma fase de sua vida no mangue.
Conforme pode ser constatado em SCHAEFFER-NOVELLI (1995), os manguezais constituem um ecossistema costeiro, de transição entre os ambientes terrestre e marinho, característicos de regiões tropicais sujeito a ação dos ventos.
Ainda considera a importância dessa biodiversidade para as comunidades ribeirinhas que dependem sua sobrevivência desse manguezal, e a pressão exercida por elas a esse ecossistema.
A Barra Grande é uma planície de maré, situada numa área sedimentar de formação tercio-quaternário, conforme (MEIRELES, 2005). Nos arredores é comum encontrar terraços marinhos holocênicos que sobrepõem conchas e rodolitos, comprovando sua formação no período. Ainda apresenta cordões arenosos que se dispõem em direção ao continente, influenciando no processo de sedimentação. A região está em constante movimentação de sedimentos, parte oriundos dos sopés das falésias mortas que circulam o município e são carreados para o local através das energias pluviométrica, eólica e gravitacional por conta do desnível topográfico, e parte trazidos pelas correntes marinhas que atuam na área, dando origem ao que MEIRELES op. cit classifica como delta de maré. Este delta apresenta uma extensão praial de 3km na baixa-mar, com canais de maré que adentram a terra em forma de rio, com aspectos geográficos peculiares. Na extensão praial aparece um banco de algas com uma vasta diversidade de algas, e uma grande quantidade de moluscos, peixes e aves, constituindo um ambiente de fluxo de energia e de reprodução das espécies.
Conforme FILGUEIRA (2003), o processo de sedimentação dá origem a um solo escuro, com elevado teor de sais, pobre em oxigênio e pouco compacto, não muito diferente da Barra Grande onde, além disso, apresenta uma área deposicional de sedimentos arenosos nas margens do canal. De acordo com (SCHAEFFER-NOVELLY, 2002) os substratos dos manguezais, de um modo geral, tem muita matéria orgânica, alto conteúdo de sais, são pouco consistentes e possuem a cor cinza escura, com exceção dos embasamentos de recifes de coral e ambientes dominados por areias. No manguezal da Barra Grande a área de maior atuação da ação marinha recebe areias que formam um cordão que circulam a parte oeste do manguezal e na parte interna apresenta um solo limo-argiloso de granulometria fina ou finíssima compostos por silte e argila.
O fluxo hidrológico é composto por águas de origem marinha com movimento diário de acordo com a ação das marés, e recebe influência de águas doce, segundo (SILVA apud CAVALCANTE, 2004) provenientes dos sopés das falésias e se direcionam para a Barra Grande nas épocas das chuvas. Na época de estiagem, maior período anual, a região é abastecida de água doce proveniente do lençol freático sub-superficial. A atividade marinha diária alaga todas as partes do manguezal uniformemente, pois no terreno existe uniformidade topográfica, não acontecendo o alagamento total apenas nas marés mais baixas. Para SCHAEFFER-NOVELLI, op. cit., as marés são o principal mecanismo de penetração das águas salinas nos manguezais. Essas inundações periódicas tornam o substrato favorável à colonização pela vegetação de mangue, isso porque excluem plantas que não possuem mecanismos de adaptação para suportar a presença de sal.
Essa dinâmica natural de movimento sedimentar com grandes cargas de nutrientes, somados ao fluxo de águas doces, inundações das marés e, a planície do local que diminui as correntes e o processo sedimentar, gerou um ambiente propício para o desenvolvimento da floresta perenifólia paludosa marítima (manguezal).
O manguezal da Barra Grande no contexto da biodiversidade tem grande representatividade deste recurso para o município de Icapuí. Considerando os estudos de SCHAEFFER-NOVELLI (1995) et al os manguezais aparecem como as zonas de elevada produtividade biológica, observando nesses ecossistemas todos os elos da cadeia alimentar.
A FLORA DO MANGUEZAL DA BARRA GRANDE
A vegetação do mangue constitui peça-chave deste ecossistema, cujo funcionamento conforme SCHAEFFER-NOVELLI apud FILGUEIRA (2002), quando as folhas, frutos e flores caem das árvores, elas passam a ser degradadas pelos organismos decompositores. O produto da decomposição combina-se com uma série de proteínas e minerais, formando um caldo nutritivo, que alimenta pequenos organismos situados na base da cadeia alimentar, como pequenos crustáceos e integrantes do plâncton, os quais servem de alimento para os níveis seguintes da cadeia alimentar.
A flora do manguezal da Barra Grande apresenta 5 espécies de mangue, confirmando as pesquisas de Drude de Lacerda3 sobre as espécies de mangue do litoral brasileiro. Alem dessas espécies florísticas, aparece uma vegetação periférica com gramíneas e herbáceas halofiticas.
De acordo com LIM apud FILGUEIRA (2002) as espécies de mangue ( obrigatórias ou essenciais ) apresentam as seguintes características:
São habitantes obrigatórios do ecossistema manguezal;
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Possuem um papel de destaque na estrutura da comunidade de mangues, podendo formar agrupamentos homogêneos;
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Apresentam adaptações morfológicas e fisiológicas como raízes aéreas e viviparidade dos embriões;
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Dispõe de mecanismos de eliminação de sais capazes de permitir a sobrevivência na água salgada;
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São taxonomicamente distintas das espécies de plantas terrestres, das quais estão separadas no mínimo pelo gênero.
Com base nas características das espécies de mangue citadas FILGUEIRA op cit, na Barra Grande elas estão apresentadas pelas espécies do gênero Rhizophoraceae, Verbenaceae e Combretaceae, conforme SILVA (1993) representado pelas espécies de mangue vermelho (Rhizophora mangle), mangue branco (Laguncularia racemosa), mangue preto ( Avicennia schaueriana ), mangue ratinho (Conocarpus erectus) e mangue eucalipto (Avicennia germinans). Associado as raízes do mangue e setores do mangue aparecem uma vasta quantidade de algas. Nas regiões periféricas do manguezal e nos arredores dos setores de apicum4, aparece uma vegetação gramínea-herbacea halofitica composta por pirrichiu (Blupton portulacoides), bredo do mangue (Sesuvium portulacastrum), salsa da praia (Ipomoea pes-caprae), e patoral (Spartina sp). Outros tipos de espécies que ocorrem nos manguezais podem ser representadas por espécies marginais ou facultativas, sendo classificadas como espécies secundárias ou associadas FILGUEIRA (ibidem).
A COMPOSIÇÃO FAUNISTICA DO MANGUEZAL DA BARRA GRANDE
A fauna do manguezal da Barra Grande é bastante diversificada, animais de diversos tamanhos provenientes de vários ambientes, ocupam os mais diversos extratos do manguezal, garantindo o equilíbrio da cadeia ecossistêmica.
A microfauna na Barra Grande apresenta microcrustáceos (copepodos, clodocerus) vermes diversos (nematoides, oligoquetas, poliquetas e rotíferos) moluscos, larvas de camarão, de peixes, de caranguejo, pueros e outras formas.
Na região, encontra-se uma grande quantidade e variabilidade de moluscos nos estratos do sedimento do manguezal, boa parte enterrada na lama como os búzios, sururu, taioba, unha de veio, rapa-coco, e/ou ainda nas raízes do mangue como as ostras e gastrópodes como os catapus e caramujos.
Os crustáceos, também aparecem em quantidade nesse manguezal, especialmente de origem marinha como os da ordem decapoda, representadas pelo caranguejo-uçá (Ucides cordatus), aratu (Aratus pisoni), mão-no-olho (Uca maracoani Latrielle) e chama maré (Uca sp). Estes animais se distribuem nos vários estratos do manguezal, enterrados no sedimento, em galerias formadas por buracos, nos troncos e raízes do mangue, até nos galhos e copas das árvores como os aratus. Ainda encontra-se siris (Calinectes sp) e camarões.
A ictiofauna é composta por diversos grupos, uns passam a vida toda no manguezal, outros uma fase, ou apenas migrações diárias. Os peixes do manguezal da Barra Grande constitui base de alimentação de boa parte das comunidades ao redor do manguezal, bem como das demais comunidades ao longo do litoral do município, que tem a pesca como sua principal atividade, considerando a importância do manguezal para essa atividade. Os peixes encontrados em maior quantidade na área são: sauna, carapicu, pargo, xinxarro, boca mole, soia, carapeba, bagre, vermelho, agulha, galo, espada e outros.
A Barra Grande, de acordo com o biólogo marinho Alberto Alves Campos5 é local de parada da rota internacional de aves migratórias. Nesse manguezal encontra-se muitas aves, algumas provenientes de países como Canadá e Estados Unidos, que passam certo tempo na área e migram até a Patagônia. Para CAMPOS destacam-se dezessete a dezoito setentrionais, dos quais quatro foram registros novos para o município, que incluem sua rota migratória.. Em outros locais do mangue existem áreas de reprodução dessas aves, com agrupamentos de ninhos nas copas das árvores. São comuns na Barra Grande: garça tricolor, garça azul, garça pequena, garça grande, garça vaqueira, pescador, sericoia do mangue, socó, sirizeta, galinha do mangue, tamatião, maçarico, piru piru, pirão gordo e outros.
A mastofauna tem uma pequena representatividade nesse manguezal, esses animais utilizam o mangue mais para refúgio e alimentação, destacando-se o guaxinim (Procyon cancrivorus) e raposa (Cerdocyon thous).
No manguezal da Barra Grande os insetos também compõem são muitos presentes, apesar de suas larvas não se desenvolverem na água salgada. Insetos como mariposas, borboletas, besouros, mutucas, moscas, mosquitos, paquinhas, tem suas larvas fitófagas alimentando-se dos tecidos das plantas do mangue.
Essa cadeia da fauna e flora associadas ao ambiente físico compõe o manguezal da Barra Grande, mantendo uma relação direta com o ambiente costeiro, através do fluxo de energias, de matéria, de espécies e de reprodução.
Esse manguezal também está relacionado diretamente com as populações costeiras, que dele dependem sua sobrevivência, considerando também sua importância econômica para o município de Icapuí que gira em torno da pesca ou atividades ligadas ao ecossistema como a exploração de sal e produção de camarão em fazendas.
Essas atividades têm causado impactos a biodiversidade do manguezal, levando a escassez de peixes, crustáceos e moluscos.
A população humana exerce sobre os recursos biológicos uma pressão crescente, tornando-os cada vez menos abundantes e ameaçados de extinção BRASIL (2000).
Vale destacar que no contexto legal da proteção dos manguezais, conforme MACIEL (1987), tanto a fauna quanto a flora encontram-se sob a proteção da legislação ambiental federal, por meio do Código Florestal (Lei 4771/65) e do |Código de Caça e Pesca (Lei 5197/67) (...) FONSECA 1998
A proteção legal dos manguezais não impede de forma efetiva sua destruição. Os manguezais ao longo de sua história tem sido local de destruição, cedendo lugar para aterros, salinas, e cidades. Um fator de pressão aos manguezais tem sido o fator econômico que contra várias atividades produtivas nesses locais, comprometendo o equilíbrio ecossistêmico desses locais.
Por tanto, considerando MACIEL apud AQUASIS (2003), vê-se que o melhor uso para o manguezal, seja na Barra Grande ou em qualquer outro manguezal, é manter os valores culturais, recreativos e educacionais, alem de manter a proteção da linha da costa e proteção dos recursos costeiros.
Considerações Finais
Conforme o exposto, o manguezal da Barra Grande aparece com um ecossistema de interação entre as áreas marinhas e terrestres, funcionando como local de abrigo, alimentação e reprodução das espécies, através da troca de energia e biomassa, tornando-se de acordo com SCHAEFFER-NOVELLI um ambiente de grande produtividade biológica.
Vale ressaltar, que ao longo do tempo o manguezal da Barra Grande foi local de concentração de atividades altamente degradadoras, que devastaram grande parte do manguezal. Essas atividades realizadas de forma desordenada geraram uma pressão ao ambiente, que levou a degradação de grande parte do ecossistema manguezal, segundo (AQUASIS, 2003), resta apenas 25% da área original.
O processo de degradação do manguezal tem acelerado de acordo com a implantação dessas atividades econômicas, que conseqüentemente acelera a pressão antrópica, através da ocupação desordenada, lançamento de efluentes e resíduos orgânicos no canal, desmatamento da vegetação e ocupação dos setores de apicum, causando danos irreparáveis ao ecossistema e gerando conflitos com as populações tradicionais que dependem sua sobrevivência dessa área. Esses conflitos se dão a partir da ocupação das áreas extrativistas e impedimento de circulação dos pescadores e coletores nas áreas de mangue pelos donos de salinas e de fazendas de camarão.
"Do ponto de vista socioeconômico, os vetores da pressão, mesmo gerando divisas para o município, pode ocasionar se mal conduzidos, um passivo ambiental a longo prazo, uma situação de exclusão social, ao impedirem a utilização das áreas remanescentes por comunidades que delas dependem sua sobrevivência" (DIEGUES 1987 apud AQUASIS 2003 p. 47)
Para garantir a conservação do manguezal da Barra Grande e a diminuição da pressão antrópica sobre aquele ecossistema lá existente, é necessário cumprir o que determina a Lei nº 4771/65 que torna o manguezal Área de Preservação Permanente – APP, que de acordo com (MACIEL N.C 1991 apud AQUASIS 2003), é o melhor uso para o manguezal, mantendo os valores culturais, recreativos e educacionais, além de manter a estabilização da linha da costa e a proteção dos recursos costeiros.
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1. Aluno do Curso de Geografia na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte-UERN
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2. Prof Doutor da Universidade Federal do Ceará - UFC que desenvolve pesquisas na área.
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3. biólogo marinho especialista em manguezais.
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4. área desprovida de vegetação vascular, situada na região entre-marés, com alta concentração de sais.
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5. Biólogo marinho que pesquisa a biodiversidade da Barra Grande
Referencias Bibliográfica
AQUASIS (ong). A Zona Costeira do Ceará. Fortaleza-CE. 2003
AQUASIS (ong). Relatório Parcial de Atividades. Identificação de áreas Prioritárias para Conservação e Recuperação. Icapuí-CE. 2003
BRASIL (Ministério do Meio Ambiente). Saberes Tradicionais e Biodiversidade no Brasil. Brasília. 2000. livro IV.
BRASIL (Ministério do Meio Ambiente) Política Nacional da Biodiversidade. Brasília. 2000. livro I
FILGUEIRA, Robson Fernandes. Introdução ao Estudo dos Manguezais. Mossoró-RN. UERN. 2002
FONSECA, Izabel A. Zimermann. Uma Revisão dos EIA/RIMA Sobre Manguezais. FAPESP. 1998
NOVELLI. Yara SCHAEFFER. Manguezal: Ecossistema entre a Terra e o Mar. USP. 1995.
SILVA. Edson Vicente da. Dinâmica da Paisagem: estudo integrado dos ecossistemas de Huelva (Esp) e Ceará (Bra). Tese de Doutorado. UNESP. Rio Claro. 1993
LACERDA, Luiz Drude. Manguezais: florestas a beira mar. revista ciência hoje. Rio de Janeiro. Ed Abril. 1994
MEIRELES, Antonio Jeovah de Andrade. Banco de Cajuais: aspectos geoambientais e ecodinâmicos - fundamentos para uso sustentável dos recursos naturais. Fortaleza-CE. 2004